Ainda não estamos prontos para o Google Glass

Como foi noticiado aqui, o Google vai parar de vender os óculos inteligentes Google Glass a partir desta semana. A notícia chegou como uma bomba silenciosa: não foi manchete da mídia geral e deve ter motivado apenas alguns segundos nos telejornais. Nas publicações especializadas, a tônica foi uma mistura de perplexidade e cinismo, do tipo “não tinha como dar certo mesmo”.

Não é preciso investigar muito para entender a decisão do Google, e perceber que o atual fracasso do Google Glass é uma derrota muito maior para a empresa do que para os milhares de consumidores que pagaram salgados US$ 1.500 pelo aparelhinho. Um eletrônico de consumo que chega às prateleiras nessa faixa de preço significa um investimento de dezenas, talvez centenas de milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento.

O Glass nasceu nos laboratórios do Google em 2006 para ser o “wearable computer” definitivo. Quem acompanha a evolução dessa tendência pode lembrar dos primeiros modelos de computação “vestível” há 15 anos ou mais – tralhas que pesavam acima de um quilo, embutidas em roupas feias. Miniaturizar um computador e integrá-lo ao corpo de uma pessoa de modo sexy e atraente é uma tarefa gigantesca. Um projeto que exigiu anos de muitos cérebros humanos e dedicação total de caríssimos supercomputadores.

Mas o fracasso do Google Glass não foi tecnológico, foi cultural e social. Essa é a lição que o Google deve assimilar com essa experiência: a contrário do iPhone da rival Apple, o Glass não “pegou”. Apesar dos muitos milhões investidos na criação do aparelho e de outros tantos gastos em relações públicas.

Celebridades de todas as áreas posaram para a imprensa com os óculos do Google. Escritores de ficção-científica. Políticos de vários países e de todo o espectro ideológico. Músicos, jornalistas, astros de cinema e televisão. Top models. O príncipe Charles. Bombeiros, padeiros, corretores de Wall Street, mães (e pais) de família.

A aversão ao Glass foi maior que tudo isso. A aparência de ciborgue de uma pessoa usando o Glass não gerou simpatia nos próximos. Gerou sim inveja (o que seria bom para a empresa, em termos comerciais), mas essa inveja foi superada pelo sentimento de rejeição. O usuário do Glass ganhou nos EUA o apelido de “glasshole”, um termo pouco elogioso unindo as palavras “glass” e “asshole” – virou sinônimo de pessoa pedante, esnobe. Para piorar, a geringonça foi vista como mais uma invasão no já corroído espaço privado das pessoas.

O Google diz no press release que o Glass não foi “aposentado”, mas “graduado” no seu programa Explorer (os usuários que pagaram caro pelo aparelho acham que repetiram de ano). A empresa se preocupa em destacar que o produto não está “extinto” ou “descontinuado”. Em vez disso, o Glass estaria “em pausa”, enquanto os engenheiros e designers do Google fazem hora extra em busca de uma solução. Como o dinheiro empatado e os interesses são muitíssimo elevados, é previsível que o Glass reapareça completamente renovado depois de um período de dormência. Tomara que não demore muito.

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 (Ilustração: Andrea Kulpas)