O futuro do pretérito da exploração espacial

Em 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin declarou que “a Terra é Azul”, e foi a senha para uma corrida espacial entre a URSS e os EUA, que levou o Homem (americano) à Lua em 1969. Apesar do impacto estrondoso da missão Apolo, as naves tripuladas foram ficando cada vez mais raras desde então. Hoje, os robôs são os verdadeiros exploradores do espaço.

O amigo e mestre Moises Rabinovici me chamou a atenção para um feito histórico de grandes proporções: no próximo dia 14 de julho, a sonda New Horizons chegará a Plutão. Lançada em janeiro de 2006 em Cabo Canaveral, a New Horizons percorreu 5 bilhões de quilômetros em uma viagem de nove anos. Daqui a cinco meses, a pequena nave vai estar a 1,6 bilhão de quilômetros da órbita de Netuno e entrar no chamado Kuiper Belt, um cinturão de planetoides gelados que são vestígios da formação do sistema solar. Rabinovici está acompanhado o progresso da New Horizons em uma série no seu blog.

A astronáutica começou no final dos anos 1950, na neblina caótica da Guerra Fria que misturava ciência e política: uma partida de xadrez (ou de esgrima) entre as superpotências de então. Esse “match” científico-ideológico teve vários lances vergonhosos, mas foi mais digno e elegante que as guerras sujas que foram travadas pelo mesmo motivo. A partida terminou no final dos anos 80: Ronald Reagan não conseguiu aprovar seu projeto de defesa “Star Wars” e a URSS se esfarelou no final daquela década. Xeque-mate ou empate?

A ficção-científica, especialmente no cinema, criou uma imagem totalmente falsa sobre as viagens espaciais: as naves dos filmes têm simuladores de gravidade ou “gravidade artificial”, os ambientes são amplos e arejados e as pessoas parecem tranquilas e relaxadas.

Mas não há nada de glamuroso em uma nave espacial de verdade, tanto em termos físicos como psicológicos. Mesmo as mais espaçosas estações espaciais são latas apertadas e claustrofóbicas, com muitas limitações e pouquíssimo conforto. Os astronautas seguem uma rotina puxada. A ausência de gravidade faz muito mal para nossos ossos e órgãos. Há o risco de contaminação pela radiação solar. Os astronautas que passam longas temporadas em estações espaciais sofrem de uma “síndrome da gravidade zero”, que inclui desde a descalcificação dos ossos até a perda do sentido do paladar (parece que as papilas gustativas deixam de funcionar). Os cientistas tentam combater essa condição com exercícios físicos regulares, suplementos de vitaminas e muita pimenta na comida.

O cosmonauta Valeri Vladimirovich Polyakov detém o recorde de permanência no espaço: 437 dias e 18 horas a bordo da estação espacial Mir. São catorze meses. Polyakov voltou à Terra com sequelas graves dessa permanência. Uma viagem tripulada de ida e volta até Marte pode durar anos, com a tecnologia que existe atualmente. O terrível isolamento de uma viagem longa como essa poderia causar problemas mentais sérios nos tripulantes, incluindo surtos psicóticos.

Os programas espaciais norte-americano e russo são hoje uma pálida sombra do que foram durante a Guerra Fria, quando os orçamentos eram gordíssimos. Com o fim da URSS, a Rússia se resignou à posição de base lançadora de foguetes — as tripulações sobem para a Estação Espacial em naves Soyuz lançadas do Cosmódromo de Baikonur, em operação desde a década de 1950. A NASA continuou operando linhas regulares de “ônibus espaciais” por décadas, mas os desastres horríveis com a Challenger e a Columbia acabaram servindo como desculpa para encerrar o programa, em meio a cortes drásticos no orçamento.

A presença humana no espaço agora se restringe à órbita terrestre, na Estação Espacial Internacional e nos voos para consertar satélites (aventuras realistas, com Sandra Bullock e George Clooney). Poucas centenas de quilômetros do chão. A não ser que chineses e indianos tenham programas espaciais secretos e muito ambiciosos, as chances de uma colônia humana em Marte ainda estão muito distantes.

Por outro lado, desde os anos 1970 as naves automáticas estão se tornando substitutos cada vez mais espetaculares dos exploradores humanos. As sondas dos anos 60 eram “burras”, meras câmeras e sensores com um transmissor de rádio. Com a missão Viking enviada a Marte em 1975, iniciou-se uma nova era da exploração robotizada de outros mundos. As duas sondas chegaram ao planeta vizinho em 1976, e reuniram uma montanha de informações que formaram a base do conhecimento científico sobre Marte até o começo do século 21. As Vikings foram ancestrais de um pequeno exército de máquinas exploradoras, cada vez melhores, mais espertas e mais versáteis que vêm pousando há anos na superfície marciana. “Coisinhas bonitinhas do pai”, de fato.

Em 1977, a NASA lançou as naves Voyager 1 e 2, para estudar os limites do sistema solar. A missão foi um sucesso sem precedentes e ainda é, porque as sondas continuam ativas e mandando informações úteis depois de 38 anos de viagem e 10 bilhões de quilômetros. Coletaram dados e imagens dos planetas gigantes (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e surpreenderam os cientistas com o registro de campos magnéticos e tempestades nesses planetas, e até detectaram erupções vulcânicas e água congelada nas luas.

As sondas estão agora mapeando a chamada “heliosfera”, uma das muitas “fronteiras finais” do nosso sistema solar. A Voyager 2 deve entrar oficialmente no espaço interestelar em 2016, e seu espectrômetro de plasma deve fornecer as primeiras medidas da densidade e temperatura do plasma sideral. Viajando a 17 km/s, serão mais 30.000 anos pelo vácuo até a estrela mais próxima.

Serão as máquinas, e não nossos descendentes de carne e osso, os primeiros terráqueos a dizer “Viemos em Paz” para alienígenas? Milhares de anos no futuro, como representantes de uma espécie provavelmente extinta.

Trilha sonora para a leitura:
O astronauta Chris Hadfield canta “Space Oddity”, de David Bowie, a bordo da Estação Espacial Internacional.

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(Ilustração: Cleido Vasconcelos)