nuvem passageira

Escritos cuneiformes, ideogramas, letras de vários alfabetos com centenas e até milhares de anos podem ser vistos em muitos museus do mundo. Registradas em pedra, argila, cerâmica, papiro e papel, essas mensagens atravessaram o desgaste natural do tempo até os dias de hoje sem perdas significativas e ainda podem ser lidas, traduzidas e contextualizadas. O mesmo ocorre com imagens e pinturas sobre suportes físicos, desde as cavernas paleolíticas até a arte moderna do século 20.

Na Era Digital que vivemos, as coisas não são assim. Nos últimos cinquenta anos, o registro de conhecimentos e também da expressão artística da humanidade se tornou cada vez mais delicado, deixando os suportes físicos de alta durabilidade e migrando para formatos progressivamente mais frágeis.

O National Institute of Standards and Technology (NIST), maior autoridade nos Estados Unidos a respeito da longevidade dos vários tipos de mídia, não tem dados precisos sobre a vida útil dos vários formatos usados atualmente para registrar dados. Um relatório recente do NIST estima que CDs e DVDs podem durar entre 20 e 200 anos, mas mesmo no limite mínimo essa duração só ocorreria em condições ideais de armazenamento, que poucas pessoas poderiam ter em casa. O estudo diz que uma parcela significativa dos CDs lançados na década de 1980 já estão irreproduzíveis – nos ambientes domésticos comuns, a perda é ainda maior. A Biblioteca do Congresso dos EUA, cujo acervo de cerca de 150.000 CDs é mantido em um ambiente rigorosamente controlado, avalia que entre 1% e 10% dos discos contém algum tipo de corrupção de dados – o que significa que não podem mais ser reproduzidos de modo algum.

Papiros parcialmente devorados por insetos egípcios há 4.000 anos ainda podem ser lidos. Cartas e fotografias manchadas e desbotadas por décadas de exposição solar ainda podem ser decifradas por historiadores. Mas os chamados “objetos digitais” são infinitamente mais frágeis: basta uma descarga estática ou um campo magnético mais forte que “queime” alguns bits entre os bilhões que compõem um texto, música ou imagem digital para que o arquivo inteiro se torne ilegível. Salvo em alguns casos especiais, a maioria dos formatos digitais exige um alto nível de integridade para funcionar.

Há outros problemas, também. O Centro de Linguagem e Cultura Ivar Aasen, na Noruega, perdeu o acesso a um imenso catálogo de conteúdo eletrônico depois da morte de um administrador que era o único que sabia a senha de acesso inicial do sistema. Demorou quatro anos para o museu conseguir recuperar o acesso ao acervo, com a ajuda de um hacker de 25 anos.

Um outro caso ilustra o perigo que o conhecimento corre na Era Digital. Na década de 1980, a BBC lançou um projeto para coletar exemplos de cultura por todo o Reino Unido, para comemorar os 900 anos do “Domesday Book”, que reuniu os registros da vida de 13.000 aldeias britânicas a partir da chegada de William, o Conquistador, em 1066. O “Domesday Project” da BBC recebeu contribuições de mais de um milhão de cidadãos britânicos. Dezenas de bancos de dados, milhares de fotos digitais e mapas digitais que podiam ser navegados. O ambicioso projeto foi finalmente registrado em dois videodiscos especiais, feitos para serem executados no aparelho LaserVison da Philips, usando o sistema BBC Master Microcomputer ou o Research Machines Nimbus. No final dos anos 1990, LaserVision e a linha de computadores da BBC estavam tão extintos quanto o pássaro Dodô. Os videodiscos não podem mais ser lidos. Mas os grandes volumes de papel-algodão do Domesday Book do século 12 podem ser consultados no Museu Britânico a qualquer momento.

Estamos perdendo a capacidade de conservar a memória da humanidade de modo durável para as gerações futuras. Nossas criações, nossos pensamentos, nossa arte, nossas leis e nossa história estão sendo depositadas em nuvens eletrônicas, em servidores e HDs espalhados ao redor do mundo. Basta uma tempestade solar de grande intensidade ou uma outra catástrofe natural localizada estrategicamente para soprar essas nuvens, desmanchando o trabalho de muitas gerações.

Está na hora de pensarmos modos mais permanentes de registro na Era da Internet, ou todos esses momentos se perderão, como lágrimas na chuva.

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(Ilustração: Cleido Vasconcelos)