Digital Disruption

“Digital Disruption” parece o nome de um videogame bem violento, tipo GTA ou Counterstrike. Ou um desses filmes de ação e pancadaria, tipo “Duro de Matar” ou “Busca Implacável”. Mas é um fenômeno muito mais amplo do que a mera violência imaginária.

A palavra “disruption” não tem uma tradução exata para o português – podemos traduzir por “ruptura” ou “rompimento”, mas essas palavras não representam bem a ideia do original, O termo tem sido aportuguesado para “disrupção” ou “disruptura”, mas o verbo em português é “diruir” ou “derruir”, que significa “desmoronar”. Ou “virar do avesso”.

A “disrupção digital” significaria então o processo de transformação radical, intensa e muitas vezes explosiva que a mídia vem sofrendo desde a chegada da internet em mercados que estavam sedimentados e lucrativos havia muitas décadas.

Os meios impressos foram os mais atingidos pelo formidável impacto desse desabar de arestas. Ao longo de pouco mais de duas décadas, uma indústria global com dezenas de milhares de títulos e faturamento sólido viu seus anunciantes migrarem para a novidade na tela do computador. A ideia de anúncios instantâneos e eficientes com distribuição mundial foi arrebatadora desde o primeiro momento.

E não dá o menor sinal de parar ou reverter a marcha. O estudo Digital News Report 2015 que acaba de ser publicado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism crava os últimos pregos no caixão da velha mídia impressa. A pesquisa foi feita com consumidores de notícias nos EUA, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, França, Itália, Espanha, Dinamarca, Finlândia, Brasil, Japão e Austrália. A conclusão é letal: os “jornais” do futuro só existirão em formato eletrônico, nas telas de aparelhos móveis como celulares e tablets, e em parceria com alguma grande empresa de tecnologia, como o Google, Facebook ou Apple. Títulos respeitáveis como o New York Times ou este O Estado de S. Paulo terão que concorrer em pé de igualdade (ou até com desvantagem) com novos players como o BuzzFeed, e com serviços de notícias distribuídos via WhatsApp ou SnapChat.

Uma análise da Forbes diz que três palavras vão mudar a indústria jornalística para sempre: “millennials” (a geração nascida a partir de 1980), “mobile” e “social”. Jovens conectados à internet desde a infância, e que ecoam em suas vidas o passo rápido dos ritmos digitais. Centenas de canais, nenhum canal.

A indústria fonográfica está sobrevivendo basicamente através de transplantes e enxertos. Os formatos físicos praticamente desapareceram, e a “loja de discos” está indo para o mesmo museu onde se encontra a “locadora de vídeos”. Até mesmo a venda digital de músicas ou álbuns cedeu lugar a uma grande variedade de serviços de streaming, que funcionam por assinatura e tem catálogos literalmente infinitos. Se orgulhar de uma grande coleção de vinis ou CDs é basicamente um fetiche nos dias de hoje, em modalidades amadoras ou profissionais. Os compositores e intérpretes podem viver hoje de uma combinação de micropagamentos de royalties desses serviços e do faturamento de turnês de apresentações ao vivo – que podem ser muito estressantes, mas aposto que dão mais satisfação e dinheiro do que os antigos contratos com as gravadoras. Madonna que o diga.

A televisão se manteve (e ainda se mantém) menos corroída pelo ácido de bits. Mas isso está mudando também, e bem depressa. O New York Times publicou um artigo falando sobre a explosão de ofertas de televisão no mundo digital, um leque de serviços que inclui o Netflix, Apple TV, Sony Playstation e serviços on-demand de várias redes e canais a cabo como HBO, Showtime, NBC, etc.

A “derruição digital”, o “desmoronamento eletrônico” da cultura, vai continuar por muito tempo, e é cedo demais e nebuloso demais para qualquer exercício de futurologia que não seja simplesmente ridículo.

Os chamados “hipsters” estão hoje desfilando em público com antigas máquinas de escrever Remington, câmeras analógicas Roleiflex. Enchem suas estantes com LPs e estão comprando velhas coleções de enciclopédias em sebos. Esses tecno-fetichistas recuperaram velhos VCR Panasonic para exibir fitas de vídeo VHS – os mais hardcore apostaram nos aparelhos Sony e no formato Betamax. É claro que é apenas uma pose, um jeito de corpo.

Mas uma grande tempestade solar no futuro pode tornar a casa desses chatos o único lugar que restará para se confirmar que a capital da Namíbia é Windhoek, ou para ouvir “The Lamb Lies Down on Broadway” ou a bossa nova de João Gilberto.

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(Ilustração: Cleido Vasconcelos)