11_14_2014

No princípio, é claro, havia o fogo. Uma pesquisa recente diz que o uso do fogo foi descoberto pelos antepassados da humanidade há um milhão de anos.

Michael Chazan, pesquisador da equipe da Universidade de Toronto que traçou a antiguidade do uso do fogo pela humanidade, diz que o impacto de cozinhar os alimentos já estava muito bem documentado pela ciência. Mas Chazan diz que, acima de tudo, o fogo foi essencial para a socialização, ao reunir as pessoas ao redor da fogueira – e isso é um aspecto essencial da nossa espécie. Portanto, é provável que o grande entretenimento dos nossos ancestrais fosse as chamas da fogueira e o avô da gente contando histórias, pelado e pintado. Um combo perfeito: comida quente, companhia agradável, calor nas noites frias e um espetáculo.

E assim passaram-se muitos milhares de anos. Até a Revolução Industrial.

Há mais de cem anos, sempre houve um aparelho nas salas de estar das residências ocidentais, algum tipo de máquina que reúne os membros da família, que promove a socialização da tribo. E essa é uma história de transformações sociais, culturais em tecnológicas que espelha o desenvolvimento das nações.

Antes do século 20, e apenas em casas de “boas” famílias, havia o piano. Ao contrário de outros instrumentos musicais, como o violino ou a flauta, o piano é de fato uma máquina musical inventada no século 18. A maioria dos outros instrumentos musicais é portátil, enquanto o piano precisa de um espaço só para ele.

Em meados do século 19, a industrialização começou as aperfeiçoar as máquinas com técnicas mais refinadas. O vapor e o gás foram substituídos por energia elétrica, e a sala de estar ficou mais bem iluminada e com novas atrações. Em 1877, a empresa do inventor Thomas Edison lançou o fonógrafo, que gravava e reproduzia sons através de um cilindro. Em 1888, o alemão Emil Berliner inventa o gramofone, que usa um disco plano em vez de um cilindro para reproduzir sons. Surge a indústria fonográfica, e as pessoas podem ouvir músicas tocadas por outras pessoas na sala de estar.

Os gramofones perdem o trono para o rádio nos anos 1920 nos Estados Unidos, e nas décadas de 1930 e 40 no Brasil. O rádio se torna o foco da convivência familiar em boa parte do mundo, ao longo de décadas. O aparelho de rádio

Inventada nos anos 1920, a televisão só se tornou comercialmente viável nos anos 30, e os primeiros aparelhos domésticos custava uma fortuna. Depois da 2ª Guerra Mundial, as TVs se multiplicaram nos EUA e antigas redes de rádio se tornaram as redes nacionais de televisão ABC, NBC e CBS. Aqui no Brasil, Assis Chateaubriand trouxe a TV para a taba, e chamou a rede de Tupi.

E desde a década de 1950 a TV se tornou a rainha suprema da sala de estar. Nenhum eletrodoméstico de diversão chegou aos pés da televisão em sua capacidade de reunir as pessoas, criar hábitos e influenciar comportamentos. A indústria publicitária pode ser dividida entre antes e depois da TV.

As salas de estar do século 20 tiveram muitas máquinas efêmeras, modismos que ficaram obsoletos ou perderam o interesse. O projetor de super-8 e o projetor de slides são bons exemplos. Outros surgiram como companheiros da TV e foram evoluindo, como o videocassete. Os primeiros VCRs eram trambolhos que ficaram cada vez menores e mais eficientes, as fitas VHS foram substituídas por DVDs, com qualidade melhor. Curiosamente, essa é uma indústria que morreu subitamente no começo do século 21, quando a pirataria e novas tecnologias devastaram o modelo comercial.

No final do século 20, a sala de estar perdeu parte do interesse como local de socialização, e muitas tecnologias mais individuais surgiram. Walkmans, joguinhos de mão como o Gameboy, depois o iPod e as telas em miniatura que explodiram no novo século.

Mas agora surgem novas tecnologias de união e reunião. Os consoles de videogame evoluíram muito e muitos jogos convidam a participação de todos os membros da família. É verdade que games com tecnologias “cinéticas” como o Wii da Nintendo e o Kinect do Xbox tiveram um momento de febre, mas já ficaram no passado. O Wii deixou de ser fabricado em 2013, mas chegou a vender mais de 100 milhões de unidades.

A onda agora são sistemas que integram todos os aparelhos da casa através de gerenciadores altamente sofisticados, com assombrosos recursos de Inteligência Artificial. Um dos destaques é o Amazon Echo, lançado pela gigante varejista nos EUA. O Echo é um cilindro eletrônico que se comunica por bluetooth e wi-fi com os aparelhos eletrônicos da casa e com a internet, e responde perguntas dos membros da família, toca seleções musicais, localiza filmes e séries, etc. Uma espécie de HAL 9000 de “2001”, em uma versão benigna e com uma simpática voz feminina. A voz chama-se Alexa e mora em um tubo. Talvez se pareça mais com a Jeannie, a gênia que morava em uma garrafa na sala. E chega custando módicos US$ 199 nos EUA.

O Chromecast, lançado pelo Google, transmite programas e clipes direto do computador ou celular do sistema Android direto para a televisão. Agora o aparelhinho (também vendido por baixo preço, até no Brasil) lançou uma linha chamada “Family-friendly games”, jogos voltados para a família. São jogos como “Roda da Fortuna”, “Monopoly”, “Scrabble”. Há até um jogo de dança, “Just Dance Now”, que funciona usando o celular como controle — se parece com o Wii, por uma fração do preço do console.

Novas tecnologias voltadas para o espaço interno, para o conforto da sala de estar, refletem a preocupação crescente das famílias com a segurança, com o aumento dos predadores e perigos da rua. Há outros fatores também, como a economia da diversão em casa. Esses novos divertimentos para a família são todos bem-vindos, principalmente porque se renovam sempre, em contato permanente com o mundo através da “porta digital” criada pela internet. Como fazer essas tecnologias gerarem dinheiro, ou melhor ainda, reproduzirem o sucesso da TV como máquina de vendas, deve ser a grande pergunta da primeira metade deste século.

Não podemos esquecer que essas tecnologias ainda são pálidas diante do combo fogueira-churrasco-avô-contador-de-histórias da noite pré-histórica. Afinal, um milhão de anos é um sucesso difícil de superar.

(Ilustração: Andrea Kulpas)