A Internet das Coisas – além das coisas e da internet

Apesar de cada vez mais badalado, o conceito da Internet das Coisas (Internet of Things, ou IoT para encurtar) ainda é uma grande incógnita. Quer dizer, todas as peças para que a IoT se torne uma realidade já estão disponíveis no mercado: chips com transmissores de rádio (RFIDs), uma grande variedade de sensores, softwares. Além, é claro, da própria internet e um vasto catálogo de objetos “aptos” a serem integrados pela IoT. O que está faltando?

Falta o essencial: um consenso em escala mundial para que essas peças se encaixem. E esse consenso envolve muitos interesses, muitos governos, muitas empresas e bilhões de pessoas (cidadãos e consumidores). Para alimentar essa fogueira, o potencial atraente de negócios multibilionários e o surgimento de novas indústrias e serviços ao redor do globo.

É fácil imaginar que nesse exato momento as “Cinco Grandes” (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) estão freneticamente buscando costurar acordos que façam a IoT sair do papel nos próximos anos. Seus executivos e estrategistas estão acumulando milhões de milhas aéreas (uma prova da importância da questão – outros assuntos são resolvidos via teleconferência) e torrando cartões corporativos em hotéis e jantares. Na outra ponta da mesa estão executivos de “velhas” empresas, aquelas que fabricam coisas como geladeiras, lava-louças, sabão em pó e latas de ervilha. E oficiais de governo, secretários e ministros de Economia, Comércio & Indústria, Ciência & Tecnologia, Planejamento. E claro, de Defesa.

A lenda oficial diz que o ponto de partida para a IoT foi a decisão do Departamento de Defesa dos Estados Unidos de incluir RFIDs em seus equipamentos para monitorar sua localização e tráfego de modo eficiente. Por “equipamentos” entenda-se aqui o maior arsenal bélico do mundo, incluindo armas de todos os calibres, mísseis nucleares, drones e uma frota gigantesca de aviões, navios, tanques, submarinos, etc. Tradicionalmente, as tecnologias militares dos EUA são muito robustas, criadas para operar sem falhas nas condições mais extremas e desenvolvidas por laboratórios e centros de pesquisa próprios – que contam com um orçamento muito maior do que qualquer corporação civil, incluindo o Google. Só para lembrar: a internet foi criada como uma tecnologia de defesa nos EUA, e o GPS também.

Hoje, qualquer produto na prateleira de um supermercado tem um código de barras. Essa tecnologia acabou de completar 40 anos, e revolucionou as operações da indústria e do varejo. Com todos os componentes já disponíveis hoje, podemos esperar que dentro de cinco, no máximo dez anos, a maioria das mercadorias nos mercados tenha um chip praticamente invisível, discreto como o código de barras de hoje, capaz de conter um volume muito maior de informações e ainda transmitir dados a uma certa distância. Que tipo de dados seriam transmitidos, e até que distância? Boas perguntas.

A IoT exige acima de tudo um padrão, um conjunto de protocolos comuns e abertos, que não seja propriedade de uma única empresa ou marca. Como a linguagem HTML usada na internet atualmente. Essa deve ser a parte mais difícil do processo, porque vai exigir apertos de mão entre ferrenhos inimigos. Sem isso, não existirá um mercado com bilhões de consumidores.

O caminho até esse futuro passa por negociações feitas agora mesmo em escritórios climatizados no 80º andar de prédios corporativos e em restaurantes de luxo em Washington, Nova York, Londres, Paris, Berlim, Tóquio, Pequim, Seul. É difícil saber se foram feitas reservas de mesas em Brasília, Cidade do México, Moscou ou Nova Déli. Mas a sobremesa (e a conta, claro) será servida para todos, bem democraticamente.

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 (Ilustração: Andrea Kulpas)