1983 - parte 2

Se considerarmos o ano de 1983 como o ponto de partida do século 21, se torna mais interessante analisar uma série de fenômenos culturais que convergem e emanam desse período.

 

Algumas das atrações mais populares atualmente são fortemente influenciadas pela década de 80. As séries americanas The Americans e The Assets, e a alemã Deutschland 83 são dramas de espionagem que se passam no período mais conturbado da Guerra Fria entre EUA e URSS. Precisamente em 1983, uma escalada armamentista das superpotências e a movimentação política na Europa quase levaram o mundo à 3ª Guerra Mundial. São séries de grande sucesso, e chamam a atenção por não serem calcadas nos filmes e séries sobre a Guerra Fria produzidos naquela época, quando a profunda divisão ideológica impedia a humanização das personagens.

 

A popularíssima Stranger Things também é ambientada em 1983. A série de ficção-científica foi criada pelos diretores gêmeos Matt Duffer e Ross Duffer, nascidos em 1984. A produção se tornou um hit por atingir a sensibilidade de várias gerações: os próprios “millenials”, nascidos nos anos, crianças e também pessoas mais velhas, que adoraram as referências aos grandes sucessos da época, como Os Goonies, E.T. – O ExtraterresteConta Comigo, O Clube dos Cinco, Viagem ao Mundo dos Sonhos, e vários outros.

 

A série americana Halt and Catch Fire conta a história de um grupo de amigos estavam entre os pioneiros da transição do PC estático e desconectado para a máquina ligada em rede que conhecemos hoje. O início da história é justamente em 1983, quando os personagens se encontram em uma empresa em Dallas e começam a criar máquinas portáteis com acesso à redes privadas online (antes da internet).

 

Não podemos esquecer da série Narcos, que registra um dos momentos mais carregados de tensão na América do Sul dos anos 1980, com a ascensão do drug-lord Pablo Escobar. O Cartel de Medelín criou um ponto de altíssima temperatura na região e fez surgir a infame “guerra às drogas” financiada pelos EUA.

 

Há ainda o espetacular média-metragem Kung Fury, criado em 2015 pelo diretor e ator sueco David Sandberg, nascido em 1981. A comédia de ação e artes marciais consegue a proeza de concentrar em meia hora um catálogo completo de referências da cultura pop dos anos 1980, incluindo até uma participação especial do ator  David Hasselhoff (Super-Máquina e S.O.S. Malibu). A produção foi financiada via Kickstarter, e atingiu US$ 630 mil, bem acima da meta de US$ 200 mil.

 

Na música, é notável a reemergência dos timbres e instrumentos eletrônicos característicos dos anos 80. A synth-music que permeou boa parte da década (em hits que tocaram exaustivamente nas rádios, na trilha sonora de muitos filmes) reaparece no trabalho de grupos elogiados como Wombat, Daft Punk, Chromeo, Foster The People, The Killers, etc. O especialista em comportamento Jeff Lee escreveu uma série de artigos sobre como a estética dos anos 1980 “invadiu” a música indie atual.

 

São pessoas jovens que estão recuperando essa “estética” do anos 1980 – mais do que mera estética, uma visão estilizada sobre o que foi essa década que os atuais criadores não viveram. Como as plateias que assistiram “De Volta para o Futuro” em 1985 não viveram os anos 1950 mostrados no filme.

 

E essa tendência não dá sinal algum de exaustão. O século 21 continuar “minerando” a década de 1980 por muitos anos ainda. Basta ver as listas de filmes, séries de TV e músicas produzidas no período para enxergar as possibilidades artísticas (e comerciais) desse filão…