Coincidência significativa fazer a primeira entrevista do blog Nossa Infância no mesmo dia do anúncio do lançamento no Brasil de O Começo da Vida, documentário com direção de  Estela Renner, que também já dirigiu Muito Além do Peso e Criança: a Alma do Negócio. Estela gentilmente conversou com o Nossa Infância nesta terça-feira, 26 de abril, data da coletiva de anúncio do documentário e comentou a respeito dos seus últimos três anos de trabalho dedicados à essa produção.”Foi um desafio incrível quando recebi o convite das organizações, uma responsabilidade imensa.

Cena do documentário O Começo da Vida: relações afetivas entre a criança e seus cuidados são importantes para o desenvolvimento

O Começo da Vida: relações afetivas para a saúde do bebê

O material de pesquisa era gigantesco, como transformar tudo aquilo em 90 minutos?”, contou a cineasta sobre o impacto da oportunidade/ missão/desafio. “Mas, aos poucos, fui enxergando o filme que existia dentro daquelas histórias e seus personagens, mirei no objetivo de transformar o documentário numa ferramenta de transformação social, senti a alegria e o sentimento de estar num lugar muito especial, com aquela oportunidade única.”

De fato, a criança e a importância do seu desenvolvimento são o principal argumento de O Começo da Vida, em cartaz no país a partir do dia 5 de maio, produzido pela Maria Farinha Filmes, apresentado e encomendado por instituições nacionais e internacionais reconhecidas por seu trabalho de projetos para a infância: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Bernard Van Leer Foundation, Instituto Alana e UNICEF.
Qual a importância dos primeiros anos de vida para criança e para toda a sua vida adulta? Para responder a essa questão, o documentário traz dezenas de entrevistas realizadas em nove países com especialistas em desenvolvimento infantil e famílias de diversas culturas e classe sociais. Não é um documentário sobre a infância no Brasil. Foi filmado no Brasil, China, França, Itália, Argentina, Estados Unidos, Quênia, Índia e Canadá. Há personagens brasileiros, mas a produção tem foco mundial. Tanto é que foi dublado em seis línguas: Inglês, Português, Espanhol, Francês, Árabe e Chinês e legendado em vinte e uma línguas. Traz depoimentos de diversas vozes e comunidades, como a da modelo Gisele Bündchen e de Phula, uma garota indiana responsável por cuidar de seus irmãos.
A produção, como bem sintetizou a diretora Estela, num animado bate-papo  por telefone,  “teve a missão de honrar a criança, colocando-a no centro de tudo”, contou Estela. No filme, a grande protagonista (a criança e sua infância) é apresentada como um ser de direitos, que se transforma em acordo com a relação com seus cuidadores e as oportunidades que tem nesta fase da vida.
O documentário é rico em imagens, contextos familiares, situações cotidianas e protagonistas de pesquisa acadêmica de ponta. Enquanto os recortes de falas de especialistas sobre a infância trazem informações sobre essa fase da vida, cenas de nascimento, crianças aprendendo a engatinhar, buscando segurar objetos, dividindo lanches na escola se alternam.
 Essas imagens seduzem o olhar e, intercaladas, cobrem vozes fortes e contemporâneas que convidam o público – especialista ou não – para uma reflexão sobre o sentido da vida, o começo dela e a importância dos afetos na saúde mental da criança para toda uma vida. Afinal, a neurociência nos trouxe uma verdade inconteste: como em nenhuma outra fase da vida, são nos primeiros mil dias de vida que o cérebro tem o seu maior desenvolvimento e, quanto mais estimulada, com espaço para brincar, luminosidade e boa alimentação a criança usufruirá dos recursos recebidos, bens inestimáveis para toda uma vida.
Para estudiosos da primeira infância ou profissionais vinculados nas disciplinas ao tema, o documentário é uma oportunidade de aprender numa linguagem emotiva, com informações e conceitos trazidos por nomes de referência, entrevistados em momentos de pouca formalidade. É um conteúdo transmitido de forma leve,  muitas vezes só disponível em muitas publicações em geral em idiomas estrangeiros e linguagem acadêmica. Para as famílias e suas crianças, o filme pode ser um momento de encontro com seu cotidiano e a percepção de que seus desafios e amores não são solitários. E, para os profissionais do audiovisual, espero, uma nova inspiração de tema: a infância e seu protagonismo.
Não é arriscado afirmar que quem assistir ao filme verá e ouvirá os mais representativos especialistas da atualidade com conhecimento multidisciplinar sobre a infância. São profissionais com estudos que estão pautando novos estudiosos, políticas públicas e a relação de educadores e profissionais da saúde com a infância. Esse é o caso do economista norte-americano James Heckman, Prêmio Nobel de Economia em 2000, que diz que a “licença maternidade não paga é inviável para muitas famílias. É importante, nos primeiros meses, encorajar alguém a ficar com o bebê período integral e a licença maternidade remunerada possibilita isso.”
CIÊNCIA E POLÍTICA PÚBLICA
Também os temas das conversas tem convergência aos grandes assuntos que pautam programas de políticas públicas, organismos internacionais e organizações sociais e privadas que se dedicam à infância. Jack P. Shonkoff, diretor do Center on the Developing Child, Harvard, Estados Unidos, chama a atenção para uma questão de política pública e desenvolvimento social. “O papel da mãe é sublime. O capital humano que a mãe investe na criança é uma parte importante da economia e que normalmente não é reconhecido pela sociedade. Quanto mais se investe financeiramente na educação das crianças, o retorno volta no futuro. É tornar o cidadão mais produtivo e com isso há a redução da desigualdade social.”
Vale lembrar que tanto Heckman quanto Shonkoff têm estudos que influenciaram os argumentos do Marco Legal da Primeira Infância no Brasil, legislação sancionada pela presidente Dilma no Dia da Mulher deste ano. O fortalecimento das famílias para cuidar das crianças ( algo tão almejado nas políticas públicas) é um aspecto que percorre o documentário do começo ao fim, bem como o papel do pai e o exercício de sua paternidade responsável, as adversidades trazidas pela pobreza, o papel dos direitos humanos, a importância da licença maternidade, os desafios da criação conjunta e a superação da pobreza e da violência são alguns dos temas abordados.
Outro recado no documentário: “O cérebro dos bebês faz novas conexões cerebrais em uma velocidade muito alta. Desde o nascimento, todas as suas interações com o ambiente influenciam no desenvolvimento cerebral e vão determinar como a criança vai crescer a partir dos estímulos que recebeu desde recém-nascida. Fora o ambiente, as pessoas que interagem”, afirma Jean Marc, obstetra e acupunturista da França.
Que várias ciências e conhecimento se associaram nos últimos trinta anos anos para estimular os cuidados e os modos de cuidados na primeira infância, isso é sabido. Mas O Começo da Vida vem trazer ainda mais uma vertente potente: a possibilidade de o cinema fortalecer ainda mais os conhecimentos sobre o desenvolvimento integral na infância, dando luz às descobertas da neurociência, ao trabalho discreto e disciplinado de estudiosos, pesquisadores, educadores, ativistas sociais e às descobertas e escolhas que as famílias fazem para cuidar de suas crianças.