Alunas do colégio Anchieta, em Porto Alegre, iniciaram uma petição destinada aos diretores da escola reivindicando o direito de usar shortinho nas dependências da instituição. No texto, elas defendem que “regras de vestuário reforçam a ideia de que assediar é da natureza do homem e que é responsabilidade das mulheres evitar esse tipo de humilhação”.  

O texto é um primor e vale a pena ser lido do começo ao fim. Garotas de 13 a 17 anos deram uma verdadeira aula de cidadania e mostraram que são super esclarecidas, politizadas e empoderadas. Elas dizem com todas as letras que a escola deve deixar o machismo no passado e ensinar os homens a não sexualizar as mulheres ao invés de impedir que as garotas usem uma peça de roupa.  “Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema”, dizem elas. E as adolescentes não estão para brincadeira: na quarta-feira protestaram em massa usando regata preta e shortinho, dois itens proibidos para as meninas do colégio Anchieta.

A reivindicação é muito justa. Nossa sociedade ensina meninas a se preservarem do assédio masculino ao invés de ensinar os homens a não assediá-las. Seja proibindo o shortinho feminino na escola, seja banindo mulheres de equipes de trabalho “para não distrair os homens”. As mulheres são tradicionalmente vistas como objetos decorativos e responsáveis pela violência que as aflige.

Mas as coisas parecem estar mudando. A petição das alunas do colégio Anchieta me deixou arrepiada e sem palavras. As jovens têm uma atitude inspiradora e a maturidade de suas ideias impressiona muito.

Impressiona porque não estamos acostumadas a ver garotas tão conscientes da desigualdade de gênero desde tão cedo. A adolescência é um período complicado em que nós temos muitas dúvidas e questões com nossa aparência, nosso corpo e como o mundo nos vê. É uma fase em que criamos ideais quase sempre impossíveis para nós mesmas.

Mas as alunas do colégio Anchieta felizmente não são exceção com sua atitude politizada e consciente: já existem vários coletivos feministas em escolas de Ensino Médio; meninas criando aplicativo de apoio às vítimas do “pornô de vingança”; temos Catharina Dória, que aos 17 anos abriu mão de uma viagem para criar um aplicativo denunciando o assédio que as mulheres sofrem todos os dias nas ruas; sem falar nas meninas na linha de frente da ocupação das escolas estaduais em São Paulo.

Tão importante quanto, temos a revista Capitolina que faz um trabalho maravilhoso e inclusivo para adolescentes. Fugindo dos moldes das publicações femininas em geral, os textos empoderam as meninas e celebram as diferenças. Como eu gostaria de crescer com essa referência.

Mas voltando às meninas do Anchieta: elas pediram uma educação “social e política”, para além da preparação para os vestibulares. Estão unidas para mudar uma regra sexista e têm muita consciência do que estão falando. Têm todo o meu apoio e admiração. Não tem como não ficar esperançosa com o que vem por aí.

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Em tempo: A petição das alunas do colégio Anchieta inspirou outras pelo Brasil. Você pode apoiá-las clicando aqui