Ilustração: Dika Araújo

Se você tem crianças na família, deve estar habituado a frequentar lojas de brinquedos na proximidade de alguma data comemorativa: aniversário, Natal, dia das crianças e por aí vai. Há alguns anos essa rotina foi incorporada à minha vida, me proporcionando um imenso desconforto toda vez que tenho que passar por ela.

Isso porque são poucos os lugares que usam e abusam tanto de estereótipos de gênero como as lojas destinadas ao público infantil. A divisão entre meninos e meninas é nítida, gritante, limitadora.

Assim que entramos em qualquer uma dessas lojas somos recebidos com a pergunta inevitável: “É para menino ou menina?”. Em geral, respondo que tanto faz, só me interessa um brinquedo adequado para a idade. Os vendedores e vendedoras, coitados, fazem uma desconcertada cara de interrogação. É minha deixa para buscar o presente sozinha.

A seção das meninas é exaustivamente rosa. Tudo rosa, mesmo os brinquedos unissex ou com equivalente para os meninos. Se é para as meninas, tem que ser rosa (ou lilás ou branco, bem feminino). Isso sem contar a dificuldade de encontrar brinquedos que não sejam bonecas ou não tenham relação com o mundo doméstico.

É na parte dos meninos que ficam os super-heróis, os animais selvagens, as naves espaciais e robôs. O universo doméstico tão onipresente na vida e nos brinquedos das meninas desaparece alguns corredores depois.

Há, em geral, uma zona mista com brinquedos para bebês e com jogos como quebra-cabeças, jogo da memória e jogos de tabuleiro. É dali que, em geral, saem os presentes dos meus sobrinhos, mesmo que cause algum estranhamento que as embalagens ainda privilegiem os meninos em suas estampas (exceto quando são rosas, é claro).

>> Leia também: O que perdemos separando o mundo entre meninos e meninas

Para os vendedores eu posso até dizer que “tanto faz o sexo”, mas é óbvio que naquele universo isso é uma mentira. Dar alguns brinquedos “masculinos” para meninas e desobedecer os estereótipos causa muito estranhamento, só superado pelo mal-estar causado ao dar algo típico do universo feminino aos garotos. Afinal de contas, tudo que nessa sociedade é entendido como feminino, é desvalorizado. Pode ser estranho dar uma espada para uma menina, mas é uma ofensa dar uma boneca a um garoto, como se aquilo ofendesse de morte sua masculinidade. Nesse esquema, escolher o presente ideal é tarefa de equilibrista.

Essas lojas são, é claro, um reflexo de uma sociedade ainda muito presa a estereótipos de gênero. Não são a causa do problema, apenas uma literal vitrine das divisões ainda presentes em nosso imaginário.

É verdade que algumas coisas que antes eram absurdas hoje são normais. Também é verdade que mais gente aceita que as meninas podem ser o que quiserem (e os meninos também, em nome da deusa!!). Mas acho que só acreditarei que avançamos mesmo quando a revolução feminista chegar nas lojas de brinquedo.


Um adendo: não deixe de conferir o clipe de “Marielle Franco”, música lançada por MC Carol que protesta contra o genocídio da população negra. Mais que necessário em um Brasil que se recusa a ouvir sobre essa realidade. #MariellePresente


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