Semana passada estreou a série “The Handmaid’s Tale”, adaptação do livro “O conto da Aia”, da canadense Margaret Atwood. A história se passa em um futuro distópico, numa sociedade patriarcal, cristã e totalitária. Todo o poder é masculino e as mulheres foram reduzidas a reprodutoras, cozinheiras, donas de casa. Proibidas de trabalhar, de ter qualquer propriedade ou autonomia, elas são sistematicamente vigiadas e, no caso das aias, estupradas para gerar filhos a seus senhores. Até seus nomes passam a ser referência aos homens que as comandam (a protagonista Offred é “Do Fred” em inglês).

Tanto o livro quanto a série dão arrepios na espinha só de pensar na possibilidade da sociedade virar algo parecido. Pior ainda quando a autora declara que nada de seu livro foi inventado, já que todos os aspectos retratados aconteceram em algum momento da história humana. E não é mentira. Já a adaptação para TV traz flashbacks da sociedade pré-distópica e os caminhos que levaram a ela. E é aí que a coisa fica mais assustadora.

Em uma cena, June (que viria a ser Offred) e sua melhor amiga Moira entram em uma cafeteria e não conseguem comprar nada porque os bens das mulheres foram bloqueados – a partir daquele momento, o homem mais próximo é quem administrará o dinheiro.  No mesmo dia as mulheres também são impedidas de trabalhar. Protestam pacificamente contra as novas medidas e são respondidas por tiros, bombas e muita agressividade (a cena é imperdível, aliás).  O cenário soa familiar?

Também aprendemos que, naquele universo, os direitos foram sendo tirados pouco a pouco, dando tempo para a nova mentalidade conservadora se instalar. Aniquilação do Congresso, suspensão da Constituição, culpa jogada nos terroristas… Soa familiar?

Na nova sociedade, não há mais garantias e liberdades individuais e o poder está totalmente na mãos dos homens. Soa familiar?

Nosso presidente, antecedido por uma mulher, disse que nossa única contribuição para a economia é olhar os preços no mercado – literalmente o que acontece em “O Conto da Aia”. Fora isso, declarou recentemente que o governo “precisa ter marido” para ser controlado – em referência à crise fiscal. Na Rússia, violência contra a mulher deixa de ser crime se cometida por alguém da família. Na Chechênia, homens gays são enviados a campos de concentração e as autoridades pretendem aniquilar essa população.

Nos EUA, Trump corta fundos de ações de planejamento familiar e tira progressivamente a autonomia das mulheres – como se estivesse imitando os flashbacks de “The Handmaid’s Tale”. No mundo, cresce a ameaça terrorista e as políticas protecionistas, aumenta a brutalidade policial em relação aos civis.

 

Se estamos a caminho de uma distopia? Provavelmente não, espero sinceramente que todo esse texto seja uma crítica sem cabimento. Mas sei que não temos motivo algum pra comemorar quando conseguimos reconhecer no presente tantos aspectos de um futuro sombrio.


Neste sábado, acontecem 2 lançamentos imperdíveis em São Paulo:

– Às 15h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Rita Lisauskas, blogueira do Estadão, lança “Mãe sem Manual”. Saiba mais aqui.

– Às 16h, na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista, a Editora Blucher promove o lançamento de “As cientistas – 50 mulheres que mudaram o mundo”. O evento contará com uma mesa-redonda sobre mulheres na ciência. Saiba mais aqui.


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