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(Foto: Reprodução Instagram)

A Olimpíada do Rio pode se orgulhar de uma coisa: ser a edição com a maior participação de mulheres da história dos jogos. Seremos 45% dos competidores. Também será a primeira vez em que todas as modalidades terão mulheres na luta por uma medalha. Sim, primeira vez. E sim, 45% é o nosso pico de representação.

Acho que nenhuma dessas porcentagens é, na verdade, motivo de orgulho. Não são mais do que a obrigação, mas ainda as comemoramos porque, em retrospecto, são um tremendo avanço. Afinal, éramos impedidas de concorrer nas edições Olímpicas da Grécia Antiga e mesmo na Era Moderna. Em 1896, fomos barradas e em 1900 somávamos apenas 22 representantes. O Barão de Coubertin, tido como o fundador dos Jogos da Era Moderna, acreditava que um Olimpíada com mulheres seria desinteressante, pouco atraente e inapropriada. Por conta da falta de espaço nos jogos tradicionais, as mulheres chegaram a fundar no inicio do século 20 uma Liga alternativa à oficial para poderem competir. Foi um ato de resistência, mas que obviamente não tinha o mesmo peso de uma Olimpíada.

Saltemos no tempo para a edição brasileira dos jogos que, com tantos problemas estruturais, acabou passando praticamente incólume com esse. Mas para o Comitê Olímpico Internacional nós ainda valemos menos do que os homens. Oficialmente. Não somos tão dignas de sermos vistas quanto eles, já que em algumas modalidades os ingressos têm preços diferentes dependendo do gênero dos competidores. É mais barato assistir uma partida de basquete feminino do que do masculino. No futebol idem. Por quê?

“Porque atraímos menos público/patrocinadores”, como muitos argumentam? Isso justifica desvalorizar o esporte feminino ou, pelo contrário, deveria ser exatamente um motivo para fomentá-lo? Não interessa o motivo, ter os mesmos jogos (mesmo esporte na mesma fase de competição) valendo coisas diferentes não tem nenhum outro significado se não o de que nós valemos menos. De que somos o produto mais barato do mercado.

Mas ok, isso poderia até não ser culpa do COI, já que temos uma sééérie de entraves culturais afastando as mulheres dos esportes – o que resulta em ligas mais precárias e desorganizadas, menos atletas, menos centros de treinamento e por aí vai. Só que mesmo que tudo isso seja verdade, é absolutamente irresponsável que o órgão gestor do maior evento esportivo do planeta discrimine os preços desse jeito. É o mesmíssimo princípio de uma mulher ganhar menos porque pode ficar/está grávida, etc. O mesmo princípio, sem tirar nem por.  

Mas antes as discriminações acabassem aí. As mulheres ainda têm que engolir muitos outros sapos para praticar esporte. Não basta a estrutura em geral muito mais precária, ainda somos tratadas como musas pela mídia e por boa parte da população. Objetificadas, reconhecidas pelos atributos físicos e pela demonstração (ou não) de feminilidade. Tratadas como tudo, menos como atletas de ponta. Nosso reconhecimento também nem de longe se compara ao que os homens recebem. Um exemplo simples, mas poderoso: Yane Marques, nossa porta-bandeira desta edição, é apenas a segunda mulher a ter a honra de encabeçar a delegação brasileira. E essa é a 22a participação do Brasil nos jogos de verão.

Os Jogos Olímpicos pretendem ser um espaço multicultural de fomento ao esporte. A Carta Olímpica especificamente condena a discriminação na prática esportiva, inclusive a de gênero, mas na prática o que acontece é que metade da delegação está mais vulnerável e sendo tratada como de menor valor. E justamente por ter estes ideais é que as Olimpíadas precisam das mulheres em sua plenitude e precisam urgentemente colocá-las em pé de igualdade com os homens.

Sou uma grande entusiasta dos Jogos, mas isso não me impede de ter olhos críticos para como as mulheres foram e são tratadas nele. Pelo contrário, me dá ainda mais motivo para querer a festa justa que as Olimpíadas se propõem a ser. E infelizmente, a Rio 2016 começou mal no tópico da igualdade de gênero. Resta esperar que façamos o melhor com o que temos em mãos – e batalhar para um futuro mais igualitário.

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