Na quarta-feira (17), a maior canção viral do momento no Spotify Brasil era “Surubinha de leve”. No funk, o autor “convoca as puta” mesmo sem dinheiro, para depois estuprá-las. Ele deixa bem claro nos versos do refrão: 

“Taca a bebida

Depois taca a pica

E abandona na rua”

A lista de canções virais é baseada na combinação entre as mais executadas da plataforma e os compartilhamentos que dão o link para a músicas. Ou seja, as pessoas estão ouvindo – e muito – uma música que faz apologia ao estupro e menospreza e desumaniza as mulheres do primeiro ao último verso. Felizmente, por conta da repercussão, tanto o Spotify quanto o Deezer retiraram a música de seus catálogos.

Mas o hábito de colocar músicas com letras tão horrorosas no topo não é de agora. Dá pra perder a conta de quantas músicas misóginas (nacionais e internacionais) estão na boca das pessoas, a maioria delas sem nem causar estranhamento. É só o reflexo de uma sociedade que trata a violência contra a mulher com a maior naturalidade do mundo e não como a atrocidade à dignidade humana que é.

Há medidas interessantes nesse sentido. O próprio Estadão fez, em 2016, uma parceria incrível com o Shazam que alertava ao usuário quando ele buscava uma música com algum tipo de violência contra a mulher.

É importante dizer que o problema não é o gênero (funk) nem mesmo o assunto (sexo). O problema é e sempre foi o machismo. Machismo está presente na MPB e em algumas das músicas mais consagradas do país (“Amélia”, “Teresinha” e “Garota de Ipanema” por exemplo), e só falar sobre sexo pode ser bem saudável. Não sendo uma música destinada a crianças, o tema não pode ser tabu, já que é um dos aspectos da vida humana.

++ Leia mais: Maria Chiquinha só morreu porque o Genaro era machista.

Essa distinção é necessária, porque os primeiros argumentos que em geral aparecem para desmerecer canções criminosas são distorcidos e confundem manifestações culturais de origem periférica (funk, hip hop, arrocha, etc) com conteúdo criminoso. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que tem que incomodar não é a música fazer sucesso apesar do establishment e sim o fato de ferir os direitos humanos mais básicos (sem nem perceber!).

Embora a letra diga muito sobre o autor da música, também não se concentra nele um problema tão estrutural. MC Diguinho não é o primeiro nem será o último artista a fazer uma música desse naipe. Ele só o faz porque é socialmente permitido. Acho difícil que alguém fizesse, por exemplo, uma música tirando sarro de uma tragédia nacional (como o desastre com a Chapecoense), mas com a vida das mulheres não tem problema: o desprezo está disseminado.

A notícia de que “Surubinha de leve” foi banida das plataformas de streaming após a maré de críticas  é animadora, um sopro de bom senso e otimismo que me faz acreditar que podemos estar vivendo um momento de avanço. Banir a música pode ser um começo para que demore a surgir uma parecida, até que progressivamente elas deixem de existir – o que, lembrando, só vai acontecer quando a sociedade parar de ser tão estruturalmente machista. Como “surubinha de leve” ainda existem muitas outras, essa é uma luta que está apenas começando.

Enquanto não conseguimos nos livrar desse machismo estrutural, deixo a voz de Carol e Vitória, duas irmãs que cantam versões femininas para várias dessas músicas que nunca deveriam ter sido lançadas. Lembram elas:

“Abusar da mulher é crime

Estupro é violência

Tira as mãos de cima dela
E coloca na consciência”


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