Foto: Laura Dodsworth / A thousand words.

Um caso de feminicídio no Paraná chocou muita gente pelas imagens explícitas da violência que antecederam a morte da mulher por seu marido. As câmeras de segurança do prédio filmaram as agressões do casal chegando no apartamento e ainda mostram o acusado carregando o corpo de Tatiane Spitzer e depois fugindo do local.

Há um intervalo de pelo menos 15 minutos entre a primeira e a última cena, tempo suficiente para fazer muita coisa: tentar separar o casal, chamar a polícia, impedir que a mulher entrasse em casa com o homem, fazer um escândalo e tentar constranger o agressor, entre outras ações possíveis. Se isso salvaria ou não a vida de Tatiane, não é possível afirmar, mas que havia janela para agir, havia.

As imagens anunciavam claramente o que viria a seguir e ainda assim não conseguimos evitar uma morte absolutamente evitável. Evitável como qualquer feminicídio, que nada mais é do que o resultado de uma sociedade estruturalmente misógina que continua nos violentando até a morte. Não estamos seguras nem dentro de casa. Aliás, principalmente dentro de casa, já que boa parte dos feminicídios é cometida por pessoas conhecidas das vítimas, especialmente parceiro ou ex-parceiro.

A realidade brasileira urge que enterremos a máxima de que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Se mete sim, a colher, o garfo e o faqueiro todo. Nossa omissão custa vidas todo santo dia. Doze delas, para ser mais exata. Sob a falsa desculpa de respeitar a privacidade alheia e de que ninguém sabe o que realmente acontece dentro de uma relação, tapamos os olhos para tragédias anunciadas. Não ligamos para sinais de relacionamentos abusivos que identificamos todos os dias, agimos muito pouco quando vemos uma violência explícita no meio da rua. O resultado é que as mulheres continuam sendo mortas por seus parceiros, muitas vezes com plateia.

>>> FAQ: Como ajudar uma mulher em situação de violência

Sim, é chato se meter no relacionamento dos outros, mas não quando isso pode salvar a vida de outra pessoa. É nosso dever interferir se identificamos violência e violação na casa ao lado, seja ela contra crianças, idosos, mulheres ou qualquer outra pessoa. Não apenas é o nosso dever, como é também o único jeito de avançarmos enquanto sociedade: cuidando uns dos outros. Meter a colher é um exercício de empatia, não de intromissão pura e descabida. É fazer o que você gostaria que fosse feito por você, é garantir que caso aconteça com você exista a possibilidade de alguém intervir ao seu favor. É comunicar que a vida de outra pessoa importa.

Para meter a colher não é preciso enfrentar um agressor fisicamente, porque as vezes isso é impossível. Meter a colher é também chamar a polícia ou outra autoridade, testemunhar a favor das mulheres agredidas, corroborar suas histórias, mostrar que ela tem um ombro amigo. Meter a colher é fazer um escândalo para constranger o agressor, é repreender seus amigos ou parentes que demonstram ter atitude violenta ou controladora. É dizer que não está tudo bem fazer o que faz. É dizer que tem gente olhando.

Meter a colher pode sim encerrar um ciclo de violência. Pode causar a punição do agressor, pode fazê-lo repensar suas atitudes. Também pode não surtir efeito direto, mas pelo menos mostra que há pessoas preocupadas fazendo o que está a seu alcance para reverter a situação.

Muitos crimes de gênero escondem-se na intimidade mascarados pela aparência de tranquilidade das redes sociais. Mas muitos outros são resultado de uma escalada de violência visível para a família e o círculo social da vítima e do agressor – ou mesmo para desconhecidos que presenciam agressões no meio da rua.  Quando escolhemos nos omitir, somos cúmplices da violência cometida por homens que têm muito pouco de monstros e muito mais de aceitação e conivência de uma sociedade inteira. Sociedade essa que, a cada omissão em nome dos bons costumes, enche as mãos de sangue das mulheres.

Meter a colher não é intromissão, é necessidade. É nosso dever enquanto seres humanos.


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