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Vera Lúcia P,

Guilherme D,

Luisa A,

Laura C,

Guil A,

Isabela*.

 

Esses são os nomes de alguns dos cidadãos brasileiros atacados nos últimos dias por apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL). Seus relatos aparecem na reportagem da Agência Pública, que levantou mais de 50 casos do tipo, além de outros 6 ataques a eleitores do candidatos do PSL e outros 15 com ideologia indefinida. Todos por intolerância, todos motivados por uma polarização eleitoral extrema, todos repugnantes.

Alguns desses ataques têm uma motivação “extra”, conforme proferido pelos próprios agressores: querem fazer mulheres e LGBTs voltarem para o silêncio de suas casas. São mulheres atacadas ou ameaçadas por estarem na rua à noite, são homens e mulheres LGBT que houvem com todas as letras que nos próximos 4 anos eles serão mortos. Entre minha rede de amigos, ao menos dois homens ouviram coisas do tipo nas ruas. Um dos gritos homofóbicos veio de uma criança (!), outro ouviu que ia morrer por não ter um cigarro. Uma professora viu os alunos desenharem uma suástica em sala de aula e proferirem ofensas racistas das mais explícitas possíveis (o que significa que não há qualquer medo de punição).

Estamos num grau de barbaridade que desafia a razão. Que exige muito mais do que um artigo para ser explicado. E que eu mesma não sei explicar, apenas me assombrar com o estado das coisas e com o percurso que culminou aqui. É nesse estado de assombro que tento fazer algumas reflexões.

Ainda que o racismo funcione de forma muito velada no Brasil, houve um tempo que chamar uma mulher negra de “preta galinha” era crime inafiançável e gerava revolta.

Houve um tempo que jogar uma mesa em um professor depois de uma aula sobre fascismo gerava revolta.

Houve um tempo em que ameaçar alguém de estupro era considerado errado.

Houve um tempo em que atropelar massas de pessoas era crime.

Houve um tempo em que ensinávamos às crianças que matar pessoas era errado. Agora, os pais e mães “de bem” anunciam a plenos pulmões que outras pessoas vão morrer mesmo e é isso aí. Tudo certo.

Houve um tempo que “respeitar o próximo” era a máxima, ao menos em teoria. Era tão na moda que usavam isso para dizer que não precisamos de leis específicas para grupos específicos, só precisamos respeitar todo mundo igualmente e pronto.

Corta para 2018, essas mesmas pessoas mostram sua verdadeira face e mostram que se depender delas, morremos torturados sim. Só por existir.

 

Para alguns grupos, leia-se mulheres, negros e negras e LGBTs, o mundo nunca foi um lugar legal. Nós sempre estivemos sob ameaça. Antes do fascismo correr solto nas bocas e ruas do país, nós já apanhávamos de lâmpada fluorescente na Avenida Paulista.

E ainda assim, a coisa está pior agora. Está pior porque agora as pessoas pararam de fingir que somos bem-vindos e bem-vindas. Pararam de fingir que nossas vidas importam, que valemos qualquer coisa. Pararam de falar que respeitar é importante para simplesmente assumir que querem mais é matar todo mundo que é diferente.

Se você não está com medo de como esse discurso foi autorizado e não tem que se perguntar se será assassinado ao som de aplausos nos próximos 4 anos, considere-se um privilegiado ou privilegiada.

Votar em quem você quiser é um direito seu – e que eu espero que nunca seja tirado. Ter na conta milhões de vidas dizimidas por conta de um discurso que legitima a violência é uma escolha.

Depois não me venham falar em pedaladas.

 

*nome fictício, a entrevistada pela Pública preferiu não revelar sua identidade.