No último mês, várias cidades da França, como Cannes e Nice, proibiram o uso do burquíni em locais públicos. O argumento é de que o traje – que, como o nome sugere, une burca e biquini – não condiz com os valores do país e é um símbolo da opressão feminina.

Desde então, algumas mulheres foram multadas por usar burquíni e até obrigadas a retirá-lo. Mulheres essas que, importante lembrar, são muçulmanas. Homens e mulheres de outras religiões podem manifestar livremente suas fés e usar símbolos, como explicitamente declarou o prefeito de Cannes, David Lisnard:

“Não proibimos o véu e o quipá (o chapéu judaico) e as cruzes. Simplesmente proíbo um uniforme que é o símbolo do extremismo islâmico”.

À parte do prefeito considerar que as únicas pessoas que usam o burquíni são extremistas islâmicas e sequer esconder o recorte religioso, quero chamar a atenção aqui para como uma proibição que se pretende libertadora para as mulheres é, na verdade, ainda mais opressora.

Proibir o burquíni é essencialmente tirar a liberdade de escolha das mulheres. É não deixar que usem o que quiserem para ir à praia ou fazer esportes. É uma proibição, é opressiva. Não se liberta ninguém inserindo mais uma cartilha em seu comportamento.

Pelo nosso total desconhecimento sobre a cultura islâmica, pensamos que todas as mulheres muçulmanas são iguais. Oprimidas e coitadas que precisam da libertação do Ocidente. Não são. Sofrem violências e opressões sim, mas não são as únicas do mundo a sofrer com o machismo e o patriarcado.

Muitas das mulheres que usam burca podem sim estar sendo obrigadas a fazê-lo, mas muitas não. Há aquelas que o fazem por escolha. Assumir qualquer coisa diferente disso é um ato arrogante e hipócrita, incapaz de lembrar que muitas outras religiões são violentas com as mulheres, inclusive as religiões cristãs com as quais estamos acostumados.

Discutir a violência contra a mulher na cultura islâmica é necessário sim, mas é uma discussão que deve ser capitaneada pelas mulheres que fazem parte dessa cultura. Não por mim e menos ainda pelas autoridades francesas em um momento de intolerância religiosa tão acirrada.

A criadora do burquini, a australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, escreveu um artigo maravilhoso para o The Guardian falando sobre o que motivou a criação e sobre o que o burquíni representa para as mulheres de sua cultura. Diz ela:

“Quando inventei o burquíni, em 2004, foi para dar liberdade às mulheres, não para tirar.[…] Isso tem dado liberdade às mulheres e eles querem jogar essa liberdade fora? Quem é melhor, o Talibã ou os políticos franceses? Eles são tão ruins quanto os outros.”

No artigo, Aheda conta sobre como se sentiu empoderada quando usou o traje pela primeira vez em público e sobre como proibir o burquíni vai contra, e não a favor, de um dos principais pilares da França: a liberdade.

A proibição do burquini tem tudo a ver com a intolerância religiosa, mas também expõe nosso machismo tipicamente ocidental, já que a primeira medida para controlar a vida e a cultura do “outro” é regular o corpo da mulher. Muçulmanas ou cristãs, jovens ou velhas, nós mulheres somos punidas se vestimos demais e punidas se vestimos de menos. Simplesmente não conseguimos ganhar nunca do sistema que se impõe contra nós.


“Esse é um traje de banho banido na França / Esse é um traje de banho com o qual a França não tem problema algum”