Quando eu tinha 17 anos, uma prima e um tio avô distante foram à minha casa visitar minha avó, que estava doente. Fiquei no meu quarto, mas de repente esse tio avô sentou-se ao meu lado e ficou me olhando. Estranhei. Disfarcei indo para a sala para ele poder ir junto, mas ele sempre voltava para o meu quarto e começou uma conversa estranha, que eu não lembro direito. No fim, me chamou para sair com ele. Não me lembro de ter respondido, tamanho o meu choque, mas lembro que quando foi se despedir logo em seguida ele falou que ia “bater duas punhetas pensando em mim” mais tarde. Nunca mais voltei a vê-lo.

Sempre tive uma sensação estranha com esse episódio, um mal-estar, e é a primeira vez que falo dele. Minha família provavelmente sabe, mas não com esses detalhes. Lembro que minha mãe ligou para essa prima e falou para ele nunca mais voltar em casa. Lembro também  que no velório da minha avó essa mesma prima veio me pedir desculpas pelo comportamento do homem e disse que ele tinha problemas mentais.

Essa é uma história que poderia estar no Precisamos falar sobre assédio, documentário lançado nesta semana e que conta com 26 depoimentos de mulheres sobre casos de assédio, abuso e estupro que aconteceram em suas vidas. É um documentário maravilhoso e muito forte de se assistir, que não tem como não chocar quem está assistindo. Mesmo eu, já calejada do assunto violência contra a mulher, fui profundamente impactada pelo filme.

A diretora Paula Sacchetta e a equipe do filme passaram uma semana rodando com uma van por diversas partes de São Paulo e Rio de Janeiro a fim de recolher os relatos das mulheres. Não abordaram ninguém, quem falou foi porque quis. Nem todas mostraram o rosto, porque os casos são doloridos e muitos nunca tinham sido compartilhados.

Os relatos eram feitos sem qualquer orientação e as mulheres falavam diretamente para a câmera, sem nenhum entrevistador. Encararam suas próprias histórias de uma maneira muito poderosa. E teve de tudo: de jovens na casa dos 20 até senhoras de 80 anos contando tristes episódios de suas vidas, histórias guardadas há muito tempo mas nunca digeridas. Momentos em que um ou mais homens se sentiram no direito de invadir profundamente nosso corpo e nosso espaço, deixando traumas muito mais duradouros do que o momento do assédio.

Uma das jovens, estuprada aos 13 anos e que não contou sobre isso nem para o psiquiatra, conta que foi como se o estuprador tivesse deixado apenas uma carcaça. Como se tivesse levado embora tudo que ela era. É esse o poder que a violência de gênero tem.

“Precisamos falar sobre assédio” é um filme muito rico para levantar diversas questões: há dois relatos de violência partindo de policiais e ambos vêm de mulheres negras e periféricas; há estupros corretivos em lésbicas; há violências que são “apenas” olhares e que levantam a questão de como é difícil denunciar uma violência. Infelizmente, tanto no filme quanto na vida, não faltam relatos de violências pesadíssimas na infância e de abusos que vêm de parentes, amigos e pessoas de confiança.

No site do projeto, é possível ver sem corte os 140 depoimentos que a equipe captou durante as semanas de gravação. Na página do Facebook, é possível ver onde o filme está em cartaz. É um filme muito didático e bom para sensibilizar quem ainda não entende a questão. É impossível não perceber como a violência contra as mulheres é absolutamente generalizada.

Comecei esse texto contando um episódio vivido por mim porque nós realmente precisamos falar sobre assédio. Quando o Think Olga iniciou a discussão em nível nacional em 2013, já dizia isso: o silêncio é o maior aliado da violência contra a mulher. A vergonha, constrangimento e certeza da impunidade fazem esse tipo de violência se perpetuar. Isso só muda gritando aos quatro ventos o que acontece conosco e falando que não está tudo bem. Foi o que todas as mulheres do filme fizeram, mesmo sem mostrar o rosto. Mesmo sem contar para o psiquiatra, falaram para a câmera, porque sabiam que estavam compartilhando sua história com outras tantas mulheres que passaram e passam pelo mesmo. É o que tento fazer nesse blog, porque não há sentido em ter esse espaço se não for para expor ao mundo o que acontece conosco.

Quem puder assistir ao filme, assista. Quem não puder, visite o site e veja os depoimentos. Há algo urgente e escandaloso acontecendo no mundo, mas nem todo mundo quer ver. Mas tenham a certeza de que, cada dia mais, vocês nunca mais contarão com o conforto do nosso silêncio.

 

Veja o trailer do filme: