Ou como o Brasil vai na contramão de seus vizinhos

Marcha de 3 anos do #NiUnaMenos reúne multidão em Buenos Aires. Foto: Prensa Obrera

No último dia 3 (domingo) o movimento Ni Una Menos, da Argentina, completou 3 anos. Surgido para protestar contra os feminicídios do país, o slogan ganhou o mundo e trouxe holofotes para o movimento de mulheres na América Latina. Neste ano, a marcha comemorativa ocorrida no dia 4 teve como foco a legalização do aborto, que está para ser votada no país nas próximas semanas. Se aprovada, a Argentina se junta ao Uruguai e à Cidade do México como um dos poucos locais da América Latina em que a prática é permitida.

Por coincidência, acabo de voltar do país vizinho. Em um momento de debate tão intenso por lá a respeito dos direitos das mulheres, foi inevitável a reflexão sobre nossas semelhanças – e como, apesar delas, estamos em momentos tão diferentes.

O feminicídio na Argentina, estopim do #NiUnaMenos, não chegou a 300 casos em 2017 – um número inaceitável, visto que simplesmente nenhuma mulher deveria morrer simplesmente por ser o que se é. No Brasil, temos cerca de 5 mil assassinatos do tipo todos os anos, e mesmo assim há uma forte resistência da sociedade em sequer aceitar a existência dessa violência. E olha que temos lei em vigor desde 2015.

Nos últimos anos, Uruguai e Chile avançaram com suas legislações sobre a interrupção voluntária da gravidez. O Uruguai legalizou a prática até as 12 semanas de gestação e viu cair as mortes de mulheres. O Chile, que antes tinha uma das legislações mais restritivas do mundo, agora tem uma lei similar à brasileira e permite o aborto em alguns casos.

No Brasil, embora protestemos pela legalização do aborto, pelo fim da violência contra a mulher e pelo maior espaço na política, estamos em um momento tão tenso e retrógrado que a luta maior é para segurar os direitos que já temos, para continuar com verba nas políticas de enfrentamento à violência e por aí vai. É para continuar vivendo em uma democracia. É verdade que o STF está realizando audiências públicas sobre a descriminalização do aborto, mas nosso contexto ainda não me deixa ter esperança de que daremos esse passo importante. Essa é uma percepção pessoal, mas sinto que está nos faltando até ânimo para seguir lutando em um cenário tão reativo às nossas pautas.

Em Buenos Aires, visitei ainda dois espaços muito interessantes: o Museu da Mulher Argentina e a Livraria de Mulheres. Localizados frente à frente no centro da capital Argentina, estes dois locais são centros de documentação das mulheres do país e recebem exposições, mostras, intervenções e são um abrigo para as militantes do país. Enquanto estive na livraria – uma das 62 especializadas do mundo – entraram diversos grupos de mulheres portando o lenço verde que simboliza a luta pela legalização do aborto no país. Elas entraram para comprar livros, mas também para apenas conversar e trocar em um espaço que já reconheciam como aliado de sua luta. Na porta da livraria, um cartaz com a foto de Marielle Franco engrossava os gritos de ordem pelo #NiUnaMenos.

No Museu da Mulher Argentina, a diretora Graciela Tejero montava a nova exposição, com peças dedicadas a cada uma das mulheres vítimas de feminicídio em 2017, enquanto me contava da preparação para a marcha do dia 4 de junho e de como as feministas argentinas estão esperançosas com esse momento histórico. Elas esperaram muito por isso, já que em seus oito anos de governo, a ex-presidenta Cristina Kirchner não se moveu em relação ao assunto, em uma triste semelhança com Dilma Rousseff.  Ao me contar de seus diálogos com as brasileiras, Graciela não escondeu sua frustração ao dizer que nós nunca conseguimos montar um espaço análogo no Brasil, apesar dos esforços de muitas mulheres. Mais uma coisa que temos a aprender com as argentinas – e com os outros países da América Latina.

Mas o momento das Argentinas parece ter chegado, e como o protesto de segunda-feira deixou claro, a causa conta com muito apoio. Com muita resistência também, como é natural, mas não dá para negar que o momento por ali é decisivo – e não só para a Argentina.

Se o momento brasileiro é desolador, faz-se ainda mais necessário acompanhar nossos países irmãos. Inspiremo-nos no #NiUnaMenos, nas Mães da Praça de Maio. Nas mulheres colombianas, chilenas, mexicanas, uruguaias. Olhemos para o lado para não nos esquecermos de nossa potência e de que é sim possível se fazer ouvir em uma sociedade profundamente machista e violência contra as mulheres.

Avante.