Está nos cinemas o filme “As Sufragistas”, estrelado por Carey Mulligan, que narra a luta de uma parcela das mulheres britânicas pelo direito ao voto – conquistado lá em 1928.  Assisti, adorei e achei que deveria falar um pouco sobre essas mulheres tão corajosas e  sobre a falsa ilusão de que depois do voto não temos mais o que reclamar.   

O movimento sufragista foi o símbolo da primeira onda do feminismo. Ele reivindicava que as mulheres também pudessem votar, o que significaria uma igualdade formal entre os gêneros e garantiria o direito básico de poder decidir sobre seu próprio futuro (e assim ter instrumentos para mudar a sociedade machista).  

Parece coisa muito ultrapassada, mas no Brasil o sufrágio feminino é mais novo que a minha avó. Só chegou em 1932 e para apenas uma parte das mulheres (casadas, com a autorização dos maridos, e as viúvas e solteiras com renda própria). E há casos piores: Na Suíça – pasmem –  o sufrágio veio em 1971. E foi só em 2015 que as mulheres da Arábia Saudita votaram. Literalmente, na semana passada.

Na primeira metade do século XX, quando a maioria dos países estendeu o direito do voto às mulheres, não faltaram comentários irônicos e ofensivos às sufragistas : “inversão de papéis entre homens e mulheres”, “as mulheres queriam tomar o papel dos homens”, “lugar de mulher é dentro de casa”, “o voto feminino vai destruir a instituição da família”. Gritos que ficaram enterrados lá no início do século 20 para nunca mais voltar, né? Só que não.

É fascinante ver as reações ao movimento sufragista para perceber como a luta das mulheres  sempre incomodou – e que ainda há muito mais pelo que lutar. É só alguma feminista mencionar desigualdade que já vem a frase: “Mas vocês já votam e trabalham, já têm igualdade, querem mais o quê?”. Isso quando não ouvimos os mesmíssimos argumentos de um século atrás  sobre como a emancipação das mulheres vai causar a destruição da família.

Se votar e trabalhar tivessem resolvido o problema, seria ótimo. Mas sinto informar que isso não aconteceu. Votamos e podemos ser eleitas, temos até uma presidenta, mas isso não impede que nossos direitos sejam constantemente ameaçados no Congresso Nacional – fato que está diretamente ligado à nossa baixíssima representação, já que somos menos de 10% dos deputados*. Isso sem falar das desigualdades nas relações interpessoais, que fogem do âmbito da lei: aquela louça que só a mulher lava, a fralda que só a mulher troca, e a segurança em andar na rua que só o homem tem.

Mas, por incrível que pareça, esse não é um texto pessimista. Sim, ainda falta muito, e sim, ainda tem gente com argumento de 100 anos atrás, mas a verdade é que aos trancos e barrancos nós conquistamos nossos direitos. Já conquistamos vários, é verdade, mas conquistaremos muito mais. Nunca foi fácil e nem por isso as mulheres desistiram. E nem vamos desistir.

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Alguns fatos** sobre o movimento sufragista no Brasil, em memória das heroínas que enfrentaram MUITA resistência para garantir o que hoje é um direito tão básico:

  • 1910: Leolinda Daltro funda o Partido Republicano Feminino, no RJ.
  • 1919: Bertha Lutz funda a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher.
  • 1927-1928:Celina Guimarães Viana consegue registro para votar e se torna a primeira eleitora do país, em Mossoró-RN.
  • 1929: Toma posse a primeira prefeita do Brasil: Alzira Soriano, de Lajes-RN.
  • 1932: O voto é garantido às mulheres casadas, desde com autorização dos maridos, e às solteiras ou viúvas com renda própria.
  • 1933: Carlota Pereira de Queirós é a primeira deputada federal eleita
  • 1985: Analfabetas conquistam direito ao voto e cai o último empecilho ao exercício deste direito.

 

*A baixa representação política das mulheres deve-se a uma série de fatores institucionais e culturais, um assunto longo demais para me estender nesse mesmo texto.

** Há algumas divergências de datas.