A última edição da revista IstoÉ estampa uma Dilma Rousseff raivosa e descontrolada em sua capa. A foto (que tudo indica ter sido tirada em um contexto totalmente diferente), a manchete e o texto falam sobre o suposto descontrole emocional da presidenta e são de um sensacionalismo e mau gosto escandalosos.

Felizmente, a revista foi duramente criticada por sua capa extremamente machista. Não há nada de novo em chamar uma mulher de louca e em desqualificá-la com base nisso.  Por séculos, foi uma das estratégias mais eficazes para silenciar as mulheres e afastá-las do espaço público, já que não possuiríamos capacidade de racionalizar. O que a IstoÉ disse foi algo parecido com isso: que estamos sendo governados por uma pessoa fora de juízo, sem faculdade mental alguma.

Não foi o primeiro ataque sexista sofrido por Dilma e provavelmente não será o último, já que a presidenta é, desde 2010, criticada por sua aparência e estado civil e alvo de insinuações sobre sua orientação sexual (como se ser lésbica fosse insulto). E as críticas a ela não raro se valem de xingamentos também fundamentalmente machistas: vadia, puta, falta de sexo e por aí vai.

É uma postura inaceitável, mas o problema é que neste atual clima de Fla-Flu político a crítica ao machismo muitas vezes é entendida como apoio ao governo. Como se atacar uma mulher com sexismo fosse o único jeito de demonstrar oposição (e o mais fácil), e como se o fato de apontar o machismo nos comentários signifique uma automática aprovação à mulher atingida por eles.  

Sinto informar, mas não é assim que funciona. O machismo não diferencia ideologias e está presente em todos os lados. Há até um ditado que diz que “não há nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda”, e isso foi facilmente verificado em muitas reações ao vídeo viral de Janaína Paschoal, a “advogada do impeachment”.

Em uma performance teatral e para lá de desnecessária, a advogada faz um discurso inflamado contra o governo. Desnecessário e de um conservadorismo assustador, mas que em nenhum momento justifica as pechas de “louca descontrolada” e “um parafuso a menos” utilizados como xingamentos.

É preciso aprender urgentemente que é possível criticar a postura de uma mulher sem ser sexista. Articulamento político ou a habilidade para resolver crises nada têm a ver com a aparência ou vida sexual de uma mulher. Na minha opinião, há muito para ser criticado no vídeo de Janaína, mas é impossível compactuar com críticas que se baseiam num pensamento tão atrasado quanto o da pessoa criticada.

Janaína Paschoal está longe de merecer minha defesa por sua postura. Entre muitas coisas questionáveis, foi ela quem alegou que as acusações de agressão do ex-procurador Douglas Kirchner não eram de abrangência da Lei Maria da Penha, mas sim de liberdade religiosa. No entanto, nada disso justifica as críticas covardes que ela também recebeu – e que fazem com que a crítica tão necessária à sua postura perca o valor.

Não penso que a advogada e a presidenta foram vítimas de violência de gênero na mesma medida, já que Dilma Rousseff é a pessoa que ocupa o maior cargo do país, e as críticas vêm na mesma proporção que sua importância: estampam capas das maiores revistas e não ficam “só” nos comentários dos cidadãos nas redes sociais. Mas enquanto mulheres, tanto Dilma quanto Janaína – e as prefeitas, vereadoras, deputadas, governadoras e senadoras – estão ligadas pelo tipo de agressão utilizado contra elas.

Mais do que nunca, é em situações assim que precisamos afirmar: machismo não passará.