Lute como uma garota. Ilustração de Luiza Normey

Lute como uma garota. Ilustração de Luiza Normey

A Olimpíada do Rio ainda está só começando, mas já tem material suficiente para comentários feministas. Em vários casos podemos comemorar, mas há motivos de sobra para ficarmos bravas e continuar lutando por mudanças. De um modo geral, acho que os feitos das mulheres estão sendo mais reconhecidos, especialmente no Brasil. Os absurdos sexistas também vem sendo apontados com mais frequência, mas ainda falta muito para estar tudo bem. Essas são algumas das coisas mais importantes que aconteceram até agora na Rio 2016:

 

Karol Conka e Mc Soffia se apresentando na abertura

Num país onde o machismo e o racismo são estruturais, a mulher negra é a parcela mais vulnerável da população. São elas as que têm menos acesso a serviços de saúde, as que têm mais mortes evitáveis, os menores salários, os maiores índices de mortalidade por aborto ilegal e inseguro e são elas também as maiores vítimas do feminicídio no Brasil. Mas elas resistem e ocupam os espaços de poder onde nunca foram bem-vindas. Na abertura, as duas cantoras cantaram o orgulho de suas negritudes para 3 bilhões de pessoas. Foi lindo.


Lea T abrindo o desfile da delegação brasileira

A modelo brasileira foi quem puxou o desfile da delegação brasileira na Cerimônia de Abertura. Nada demais, não fosse o fato dela ser uma mulher trans e estar ocupando um espaço de prestígio e visibilidade e que não destruiu a família brasileira e nem machucou ninguém. Um gesto pequeno, mas muito importante para um grupo sistematicamente marginalizado até mesmo dentro do movimento LGBT, que marcou sua presença e sua existência perante o mundo.  


Estupros na vila olímpica

Nem tudo são flores e elogios durante a Olimpíada e infelizmente tivemos casos de assédio e estupro antes mesmo da abertura. Um boxeador marroquino e mais recentemente um da Namíbia foram detidos sob acusação de estupro. Em ambos os casos as vítimas foram as camareiras. São episódios que nos relembram como o corpo da mulher é entendido como espaço público – especialmente se há uma relação de poder e de classe no meio. Afinal, se as vítimas em questão estavam ali para servir atletas olímpicos, por que não os serviriam sexualmente? Soma-se a isso também a extrema sexualização da mulher brasileira, estereotipada em boa parte do mundo como uma máquina de sensualidade e instrumento para prazer alheio.  

O mínimo que esperamos é que os acusados sejam rigorosamente punidos pela justiça brasileira e pelo Comitê Olímpico Internacional. Violência contra a mulher é inaceitável e deve ser denunciada em qualquer situação.  


O show do futebol feminino

Com uma seleção masculina apática e que não convence, o país do futebol virou seus olhos para a as mulheres. São só elogios a elas e sobram críticas ao descaso com o futebol feminino.  Já não era sem tempo, porque as nossas jogadoras denunciam as condições precárias da modalidade há muito tempo, fora o estigma e discriminação que sofrem simplesmente por serem mulheres jogando futebol.

Mas uma ponderação é necessária: será que esse entusiasmo continuará ou foi só um alento durante a má fase da seleção masculina? Substituímos um ídolo pelo outro, como se só houvesse espaço para um: sai Neymar, entra Marta. O perigo é o futebol feminino perder a pouca atenção e incentivo conquistados assim que a seleção masculina der indícios de melhora.

Não é que não seja super poderoso ver a torcida brasileira, sempre tão apaixonada por futebol, voltar seus olhos para as mulheres e se render ao show de futebol apresentado por elas. Isso é lindo. Finalmente falamos no assunto e damos a elas o papel de protagonistas que sempre mereceram, e isso certamente resultará em inspiração para mais meninas jogarem futebol. Só não adianta nada amar a seleção agora para depois continuar ignorando sua existência. 


O ouro negro, periférico e LGBT

A vitória de Rafaela Silva no judô é talvez o acontecimento mais simbólico até aqui. Pelo menos em termo de representação e inspiração. O único ouro do Brasil até o momento veio de uma mulher negra, periférica e lésbica. Foi por causa do esforço dela, uma pessoa que concentra tudo que é marginalizado na nossa sociedade, que o hino brasileiro tocou para todo mundo ouvir.

Rafaela sofreu ataques racistas muito duros após sua derrota na Olimpíada de Londres e agora volta como campeã olímpica. Essa medalha é mérito totalmente dela, que teve e ainda tem que enfrentar o lado mais cruel da torcida. Se agigantou e deu sua resposta no tatame, fazendo o mundo olhar para ela. 


O pedido de casamento que ganhou o mundo

A foto rodou o mundo e merecidamente. A voluntária Marjorie Enya pediu Isadora Cerullo, sua namorada e jogadora de rugby do Brasil, em casamento após a entrega de medalhas da modalidade. Muitos cliques e, felizmente, representação positiva da história. Foi super bonito, super simbólico e aumentou o holofote aos LGBTs das Olimpíadas.

Desde antes do início dos jogos, veículos importantes da imprensa mundial já destacavam a maior participação de gays, lésbicas e bissexuais nesta edição dos jogos. Deveria ser normal, apenas mais uma característica dos atletas, mas a verdade é que em um mundo tão violento com esse grupo, é crucial destacar a presença de atletas LGBT e suas conquistas para que elas jamais sejam invisibilizadas. Ao que tudo indica, a Rio 2016 – que foi chamada até de “olimpíada mais gay da história” vem conseguindo dar esse destaque (positivo) a eles. E a foto de Isadora e Enya tem um papel importantíssimo nisso.


Os ataques misóginos à Joanna Maranhão

A nadadora brasileira não se classificou para as semis dos 200m borboleta e, como é quase regra com as mulheres, recebeu uma enxurrada de ofensas pessoais na internet. Ofensas baixas, desnecessárias, cruéis e injustificáveis.

Vale lembrar que Joanna é sobrevivente de violência sexual e que, com muita dignidade, dá a cara a tapa para falar sobre isso. O preço é alto: muitas das ofensas diziam que ela merecia ser estuprada novamente e outras barbaridades sexistas que só as mulheres são capazes de imaginar.  Joanna, que não tem sangue de barata, ficou abalada e soltou o verbo, dizendo com todas as letras que o Brasil é um país homofóbico, machista, racista e xenófobo. Uma obviedade que as pessoas ainda se recusam a aceitar.

O caso de Joanna Maranhão não é o único exemplo e nem de longe acontece só nas Olimpíadas. Quantas vezes por ano não lemos as manchetes “Fulana é alvo de ataques racistas/machistas/homofóbicos na internet”? Mas nem por isso deixa de ser menos importante. Pelo contrário, só mostra como apesar dos avanços ainda jogamos baixo com mulheres (e negros, e LGBTs, pobres…). Ser uma atleta olímpica não foi suficiente.


Cobertura sexista dos jogos

Um fato que espanta um total de zero pessoas é que o jornalismo esportivo é muito machista e que a cobertura dos esportes feminino e masculino é muito discrepante. Na Rio 2016 não tem sido diferente.

Apesar de mais do que nunca as mulheres estarem ocupando papéis de destaque nas Olimpíadas, a mídia sobre elas ainda é muito injusta e sexista. Vários dos itens anteriores mostraram sim uma representação positiva de coisas que antes seriam escândalos, mas a triste realidade é que isso ainda é exceção. As atletas são frequentemente tratadas como esposas/namoradas/mães de alguém, questionadas sobre sua aparência (porque de que importa ser uma atleta de ponta se você não cumpre os padrões de feminilidade?) e extremamente sexualizadas. Sobra conteúdo sobre estética, falta conteúdo sobre competência. E não sou eu que estou dizendo, é a Universidade de Cambridge, que divulgou um estudo que compara o tratamento dado aos esportes feminino e masculino.

Uma usuária do twitter também apontou muito didaticamente o sexismo na cobertura midiática: um mesmo jogo de vôlei de praia fotografado por um homem e por uma mulher. À esquerda, a foto tirada por ela; à direita, por ele.

Precisa dizer mais alguma coisa? 


Esqueci de algum momento? Deixa aqui nos comentários. E que até o fim dos jogos eu ainda tenha muitas coisas positivas a destacar sobre as mulheres incríveis competindo no Rio de Janeiro.

Para ler mais sobre as mulheres na Rio 2016:

– “Os 9 títulos mais machistas dos Jogos Olímpicos do Rio

– “Mulheres recebem menos na maioria dos esportes

– “Máscaras escondem histórias fortes nos esportes que quase ninguém vê

– “Atletas lésbicas da Rio 2016 denunciam homofobia da torcida no futebol

– “Examples of Sexist Olympic News Coverage

– “In Brazil, where men’s soccer once was king, the women’s game rules

– “Rio 2016 could be the moment Brazil sheds its sporting stereotypes