A “grande” descoberta após o constrangedor vídeo de brasileiros assediando a mulher russa

Foto: Paulo Pinto/AGPT

A essa altura quase todo mundo já viu o vídeo dos brasileiros assediando e constrangendo uma mulher russa durante a Copa do Mundo. Se não viu, cruzou com alguma notícia sobre o assunto. E elas foram várias: desde os pedidos de desculpas por livre e espontânea pressão dos envolvidos, a identificação de que alguns eram funcionários públicos, a demissão de um deles, até a notícia de que uma jurista russa também tomou medidas contra os brasileiros, que poderão ser penalizados com uma pequena multa ou até sanções para retornar ao país.

Dentre os desdobramentos do caso, chama a atenção ver quem deu a desculpa de álcool em excesso como justificativa dos atos – e de quem acreditou nela. Álcool, sempre ele. É curioso como as bebidas alcoólicas são sempre a causa exclusiva de tantas violências (essa, no caso, uma violência com fortes doses de machismo e racismo).

É o álcool que surpreendentemente cria um repertório ofensivo contra as mulheres e entende que tudo bem usá-lo, porque a ofendida não entende o idioma mesmo.

É também o álcool que faz bons moços com futuros brilhantes serem corrompidos pelo ímpeto nunca antes sentido de abusar de uma mulher desacordada.

É o álcool que faz um sujeito perfeitamente inocente começar a agredir na mulher e não mais parar (efeito duradouro esse, né?).

E o álcool, e se é só ele esses sujeitos estão isentos de culpa.

 

Só tem uma situação que o álcool não tira a culpa de ninguém: quando quem o consome é uma mulher. [ironia] Afinal de contas, uma mulher alcoolizada ficou bêbada porque QUIS, agora ela que lide com as consequências dos seus atos. Não que seja legal abusar de uma mulher, mas elas sempre sabem o risco que correm quando escolhem beber, né? Ah, ela foi drogada ou alcoolizada sem o consentimento? Bom, provavelmente estava numa festa cheia de desconhecidos, sabe que esse tipo de coisa acontece. [/ironia] Quem diz qualquer uma dessas frases ou pensa algo do tipo colabora com a noção de que as mulheres é que têm que se prevenir de uma violência, pois os homens tudo podem e/ou são assim mesmo.

Álcool pode sim potencializar muitas violências e acarretar tragédias, mas ele não faz nascer a noção de que as mulheres devem alguma coisa aos homens ou de que é permitido ou normal constrangê-las e assediá-las. Na melhor das hipóteses, isso é apenas revelado pela bebida, mas está bem guardadinho lá sim, obrigada. Na maior parte das vezes, nem tão guardado assim.

Não sei dizer o efeito que o álcool tem em cada um dos homens que cometem violências quando estão bêbados. Mas sei que entre os efeitos colaterais da bebida, seja uma cerveja brasileira ou uma vodca russa, não está a geração espontânea de preconceito, estereótipos e da sensação de que se pode falar o que quiser para uma mulher desconhecida. Isso aí é aprendido muito antes de sequer sermos autorizados a beber.


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