Manifestação nazista em Charlotesville (EUA)

Manifestação nazista em Charlotesville (EUA). Foto divulgada na página “Quebrando o tabu

“O sujeito ideal do reinado totalitário não é nem o nazista convicto, nem o comunista convicto, mas o homem para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso não existem mais” – Hannah Arendt

A essa altura todo mundo sabe que a cidade de Charlotesville, nos EUA, foi sede de um protesto nazista no último fim de semana. Nazista mesmo, com direito à bandeira de suástica e tudo, e que ocasionou na morte da jovem Heather Heyer. Os nazistas pregavam o ódio a negros, judeus, imigrantes, LGBTs e basicamente qualquer grupo que não um homem branco.

Era de se esperar que a repercussão da história (pela população, políticos e mídia) fosse deixar claro o surrealismo dessa manifestação em pleno 2017, mas infelizmente não foi isso que aconteceu: o presidente Trump demorou mais de um dia até condenar expressamente as manifestações como oriundas do racismo e quando o fez também culpou os “extremistas de esquerda” por manifestações violentas; a mídia americana está contida para usar o termo “nazista”, preferindo nacionalistas, supremacistas e o chamado ‘alt-right’; e mesmo entre a população vem crescendo a tensão racial – quando, repito, era de se esperar uma condenação explícita de uma manifestação NAZISTA.

Confesso que não paro de pensar nesse episódio e que, quanto mais penso, mais concluo que estamos no fundo do poço. Há de se ter muita tranquilidade – ou, no mínimo, alguma confiança na impunidade – para sair na rua ostentando uma bandeira nazista. Ainda que o nazismo nunca tenha deixado de ter seus simpatizantes, ostentá-lo em praça pública é um sinal vermelho para a humanidade.

Os registros (entrevistas na mídia americana e algumas camisetas) mostram que, para alguns dos participantes dos protestos, a eleição de Trump foi determinante para recuperar a “liberdade” de ser nazista, de oprimir, de enaltecer uma ideologia supremacista e responsável pelo assassinato de milhões de pessoas. O mais triste é que as declarações posteriores do presidente deixaram claro que os manifestantes não estão errados em contar com ele, que ao invés de solenemente condenar os atos racistas, supremacistas (e tudo que há de ruim) escolheu equipará-los aos protestos de resistência. Isto é, na cabeça de Trump reprimir o nazismo é igualmente ruim a ser nazista e fomenta a violência tanto quanto o movimento capitaneado por ninguém menos que Adolf Hitler.

Recentemente li dois livros que me tiraram um pouco a fé na humanidade, ou pelo menos me fizeram olhar com muito ceticismo para o momento que o mundo vive. Um deles é “Triângulo Rosa”, de Jean-Luc Schwab, que conta a história de Rudolf Brazda, enviado a um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial por ser gay. O livro mostra os avanços graduais do conservadorismo e a maneira com que ele foi tolhendo a liberdade, condenando pessoas a morte por viverem vidas diferentes da norma. Não é uma realidade distante, basta ver o ódio presente no discurso das pessoas que pensam diferente, seja nos EUA ou aqui. Basta ver a violenta reação da sociedade brasileira ao avanço dos direitos LGBT, tão precariamente conquistados e já ameaçados. Basta ver, principalmente o fato de que a Chechênia tem um campo de concentração para homens gays e ninguém (NINGUÉM) está falando nada (NADA) sobre isso. A imprensa local, especialmente a russa, reporta mais de 100 homens enviados e ao menos três mortos. O país também vive uma ofensiva contra a população LGBT, com vastos registros de familiares matando parentes não-heterossexuais.

Eu jurava que isso seria um escândalo e que toda a comunidade internacional se revoltaria com o ressurgimento de um dos períodos mais obscuros da história da humanidade e que nós juramos não repetir. Mas não, nada acontece.
Os horrores do nazismo e da Segunda Guerra chocaram tanto a humanidade que, findado o conflito, criamos a ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, expressando tudo aquilo que é intrínseco ao ser humano e que ideologia nenhuma pode tirar.

Foi o que me chamou a atenção no livro “A Guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Alexijevich, ganhadora do Nobel de Literatura. O livro traz relatos muito crus da Segunda Guerra Mundial e de seus horrores – coisa que nosso mundo parece ter se esquecido. Como muitas das mulheres deixam claro em seus relatos, o fim da Guerra trouxe a esperança de que o mundo tinha aprendido sua lição e de que todos iam ser felizes novamente.

Dói dizer que não aprendemos nada com a história. Quase 80 anos depois, cá estamos novamente, tendo que dizer que nazismo é de direita (!) e que é ruim (!!). Que ao menos o desenrolar seja diferente.


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