Que atire a primeira pedra quem não se perguntou pra onde estamos indo

Os brasileiros – políticos, humoristas, cidadãos comuns – estão reproduzindo discursos de ódio numa frequência e tranquilidade assustadoras. Mas também estão mais críticos do que nunca com discursos machistas, racistas e homofóbicos. Tenho visto que na mesma sociedade em que as pessoas se orgulham de opiniões preconceituosas, não param de nascer coletivos e organizações feministas e anti-opressão em todas as faixas etárias e sociais.

Não sei vocês, mas eu estou confusa.

 

Confusa de verdade, porque não consigo decidir se estou numa sociedade conservadora ou em uma que avança (progressista talvez seja um termo forte demais), já que vejo os dois lados muito bem representados. Sinto que estou vivendo a época mais conservadora desde que eu nasci, mas ao mesmo tempo atitudes primitivas de preconceito, ódio e discriminação são mais explicitadas e combatidas. E não estou falando apenas do meio em que vivo: classe média/alta e majoritariamente branca de São Paulo.

Embora confusa, consigo perceber, sem medo de errar, que institucionalmente a gente tá regredindo bastante. Quem está no poder, em todas as esferas, é um homem branco (salvo raríssimas exceções) rico e interessado em manter seus privilégios e nada mais. Os outros que se danem, e ele vai agir bastante pra se danarem mesmo e tirar todos os direitos que a gente conquistou com tanta luta. Onde as regras são ditadas, a gente não tem espaço.

Tenho pra mim que esse crescimento do conservadorismo – e que é explicitamente fascista em vários momentos – só veio porque a gente estava de fato avançando e questionando mais, deixando de aceitar tudo que era dito e oferecido. Acho que se não tivesse tido avanço, não teria gente tão desesperada pra mexer nas escolas e impedir que elas tragam reflexões políticas, por exemplo.

A gente viu que podia mais, que merecia nossos direitos e que não ia ficar sem eles. Isso assustou uma galera, que está rosnando sem parar e fazendo a gente está pagar o  ?p?a?t?o? preço. E aí corta pra esse momento meio esquizofrênico, com gente gritando dos dois lados, mas sem conseguir conversar.

Só que enquanto vejo tudo isso acontecer, eu também presencio um despertar para coisas que a gente, enquanto sociedade, meio que sempre fechou os olhos antes. A propaganda sexista, a expressão racista do vocabulário, o entendimento que @ prim@ homossexual não é pior do que você. A ideia de que ninguém pode ser humilhado por ser quem se é. Tem resistência de norte a sul, nos colégios de ensino fundamental até a terceira idade (vide coletivos feministas secundaristas e projetos que buscam empoderar a mulher da terceira idade). Também já perdi a conta de quantas profissões têm grupos organizados de mulheres, que se unem e compartilham suas experiências nem que seja via grupo de Facebook. Essas mudanças podem não ter a caneta na mão para mudar as leis, mas são poderosas demais para serem ignoradas. Não fossem poderosas, não teria gente querendo combater.

 

Talvez seja próprio da natureza humana ser de tudo um pouco, talvez as sociedades tenham sempre sido complexas e a gente que acabava aprendendo só um lado da história. Ou talvez seja um fenômeno próprio do momento extremamente polarizado que o Brasil vive já há alguns anos.

Não sou socióloga e que nada que eu diga aqui está embasado teórica ou academicamente, são só devaneios de uma pessoa confusa com o mundo em que está vivendo e que acha que qualquer um que vê o mundo só por uma ótica está ignorando uma parte muito importante. Me pego escrevendo textos otimistas em uma semana, e profundamente pessimistas na próxima, como se o mundo me transbordasse de esperança e na semana seguinte jogasse toda ela pelo ralo.

Não tenho a menor ideia de para onde caminhamos, mas espero que seja para um lugar melhor. Um lugar em que a gente tenha direitos básicos sobre o nosso corpo e onde as pessoas consigam aceitar que quando nós reclamamos não é pelo prazer em pentelhar e sim pela urgência de ser tratada que nem gente.  


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