Foto parte do projeto Portraits of Silence, criado pelo app Woman Interrupted. Autora: @adr_ferreira

O que Manuela D’Ávila, Hillary Clinton, Carmen Lúcia, eu e você (mulher) temos em comum? Somos todas interrompidas quando falamos. E não é coisa da minha cabeça: na verdade, uma pesquisa da George Washington University de 2014 constatou que somos 2,1 vezes mais interrompidas do que os homens em conversas simples. É o chamado “manterrupting”, um dos tipos invisíveis de machismo que tenta, literalmente, nos calar todos os dias.

Os estudos acerca de fenômenos mais sutis de desigualdade de gênero – como interromper as mulheres –  estão apenas começando, já que a conversa sobre eles também é recente. Mas os resultados convergem: as mulheres são desproporcionalmente interrompidas quando falam.

Exemplo disso foi a sabatina com a pré-candidata Manuela D’Ávila (PCdoB) no programa Roda Viva, em que ela foi interrompida 62 vezes. Em comparação, o também pré-candidato Ciro Gomes foi interrompido apenas 8.

Nos Estados Unidos, os debates entre Donald Trump e Hillary Clinton tinham a mesma característica: ele a interrompeu 51 vezes. Ela fez o mesmo outras 17.

Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, reclamou em sessão de 2017 da interrupção do ministro Luiz FuX em fala da também ministra Rosa Weber. Disse ela:

“Como concede a palavra? É a vez dela votar. Ela é quem concede, se quiser, um aparte.[…] Foi feita agora uma pesquisa, já dei ciência à ministra Rosa, em todos os tribunais constitucionais onde há mulheres, o número de vezes em que as mulheres são aparteadas é 18 vezes maior do que entre os ministros…

A pesquisa a que Carmen Lúcia se refere foi feita nos EUA e analisou a fala das mulheres na Suprema Corte por lá. O resultado? As mulheres são em média 3 vezes mais interrompidas, sendo caladas até mesmo por advogados, o que não é permitido e poderia inclusive causar punição.

Duvida? Faça o teste. Foi desenvolvido no brasil o app Woman Interrupted, que ouve as conversas e calcula quantas vezes uma mulher é interrompida.

Pode parecer bobeira, especialmente se você é homem. Manterrupting e outros tipos de machismos invisíveis em geral só são percebidos por quem os sofre – e mesmo assim, leva tempo até entendermos isso como um fenômeno coletivo. Mas assim como qualquer manifestação de desigualdade ele não pode ser ignorado, mesmo que não seja compreendido por você.

São práticas como a interrupção de mulheres, a apropriação de nossas ideias e o tratamento destinado a nós que em geral nos considera como menos apta ou tendo uma fala de menor valor que pavimentam o machismo explícito que assedia, agride, violenta e mata mulheres todos os dias e todas as horas no Brasil. Estupradores e assassinos não nascem da noite para o dia, mas após aprenderem a vida inteira que há uma série de comportamentos permitidos com outras mulheres.

Pode ser extremamente confortável achar que isso é conversa de gente louca, mas é uma ilusão. Sistêmica como é, a desigualdade de gênero se sustenta em cada detalhe de nossas relações sociais e, portanto, exige um pente fino em nossos próprios comportamentos para que deixemos de reproduzir essas desigualdades. Inclusive repensar se estamos interrompendo as mulheres enquanto falam. Te convido, homem ou mulher, a observar isso em suas próximas interações.


Me contate pelo Facebook