A votação na Câmara dos Deputados pelo prosseguimento do impeachment de Dilma Rousseff é um evento desastroso para a democracia. O argumento de que o processo segue os passos previstos na Constituição quer mascarar o uso político e golpista que há por trás e a verdadeira corrida para tomar o poder. Não há crime comprovado contra Dilma e, mesmo se houvesse, isso nem chegou a ser discutido pelos deputados nas votações do fim de semana. Não há sequer a tentativa de disfarçar a sede pelo poder, o ódio e o desprezo pelo direito de minorias e pelo resultado legítimo das urnas em 2014.

Agora o processo segue para o Senado e a queda da presidenta parece apenas uma questão de tempo. Não bastasse a tragédia para a democracia e a falta de respeito com os 54 milhões de votos que levaram Dilma ao poder, o impeachment da presidenta é particularmente calamitoso para os movimentos sociais em geral, especialmente o das mulheres.

Para começar, é extremamente simbólico que o atentado contra a democracia venha no governo da primeira mulher a ocupar a Presidência da República. Mas o que poderia ser apenas uma infeliz coincidência demonstra sua verdadeira face com as manifestações sexistas no plenário e com a linha de sucessão que nos aguarda. As placas de “Tchau, querida” demonstram um machismo velado, uma demonstração jocosa de poder, de “quem manda mais”, e a desqualificação da mulher que tentam derrubar. O impeachment tem a cara do nosso Congresso: é homem, branco, rico, religioso e que não está preocupado com igualdade. Basta ver como votaram os deputados quando se faz esse tipo de recorte.

Se Dilma cair, estamos na mão de Michel Temer e Eduardo Cunha (supondo que estes não sejam afastados). Se Temer não esconde o descompromisso com movimentos sociais e com a própria chapa que o elegeu, Eduardo Cunha é uma das maiores ameaças aos direitos das mulheres. O deputado é favorável a projetos como o Dia do Orgulho Hétero e à restrição do aborto em qualquer situação. Cunha quer restringir o atendimento às vítimas de estupro e até o acesso à pílula do dia seguinte. Somam-se a isso os aplausos que deputados como Jair e Eduardo Bolsonaro recebem ao defender abertamente a volta da ditadura e, no que deveria ser a Casa do Povo, louvar torturadores como o coronel Brilhante Ulstra.  

A tragédia é iminente e incalculável. São tempos medievais para os movimentos sociais que tentam conquistar ou pelo menos manter os poucos direitos conquistados nos últimos anos. Só nos resta tomar as ruas e exigir que não sejamos governados por pessoas muito mais golpistas e corruptas do que a mulher que tanto desprezam.

 

Em tempo: eleger um governante democraticamente não significa nem nunca significou a obrigatoriedade de apoiar todas as ações de sua gestão. Pelo contrário, significa cobrar para que as promessas sejam cumpridas e para fazer valer seu voto. E Dilma Rousseff, desde antes do início de seu segundo mandato, já apunhalava os grupos que a elegeram – onde me incluo. Em nenhum momento, no entanto, isso justifica tirá-la do poder arbitrariamente e substitui-la por grupos ainda mais conservadores do que os presentes em seu péssimo governo.