Arte: Doaa Eladl, cartunista egípcia.

Se você vai estudar sobre aborto no Brasil, vai se deparar com o nome de Debora Diniz. Se for escrever sobre o tema, certamente uma de suas fontes vai recomendar que você também fale com ela, antropóloga da UNB e referência internacional no assunto. Débora é uma pesquisadora e uma ativista incansável, coordenando as duas edições da Pesquisa Nacional do Aborto (PNE) no país (2010 e 2016), relatórios sobre os impactos da epidemia de zika, entre tantas outras publicações importantes. Seu trabalho revela com clareza as situações de vulnerabilidade em que as brasileiras se encontram, especialmente se pobres e negras. Mostra que aborto é uma realidade no Brasil e um segredo que mora na mulher comum, não nas profanadas cotidianamente. Em resumo, os trabalhos de Débora Diniz mostram tudo aquilo que a sociedade brasileira evita saber sobre si mesma.

Não é um acaso, portanto, que Débora Diniz esteja sendo a vítima da vez dos ataques de ódio na internet. Ainda mais porque o STF está prestes a votar a descriminalização do aborto e Débora é um nome de peso na agenda pró-legalização. A antropóloga já registrou diversos boletins de ocorrência na Delegacia de Atendimento à Mulher pelas ameaças e ofensas que recebeu. São ataques gravíssimos e que exigem punição.

O caso de Débora também pede uma profunda reflexão do que é lutar por direitos humanos no Brasil de hoje. Débora não é a primeira e infelizmente não será a última a sofrer este tipo de ataque. Em uma piscada de olhos me lembro de Juliana de Faria e Nana Queiroz, ambas ativistas que receberam ameaças de estupro e morte após capitanear as campanhas “Chega de Fiu Fiu” e “Não Mereço ser estuprada”, respectivamente. E isso sem falar de Taís Araújo, Maju Coutinho, Djamila Ribeiro e todas as mulheres negras atacadas diariamente por denunciar o racismo. Ou apenas pelo crime de ser uma mulher negra bem sucedida.

Qualquer mulher que denuncie a desigualdade de gênero (e raça) estrutural brasileira vira alvo. Não alvo de um debate saudável de ideias onde a discordância é mais do que bem-vinda, mas alvo de ataques ferozes, raivosos e descabidos na tentativa de silenciá-la. Ataques estes que podem vir de robôs programados para incomodar mulheres que se levantam contra o machismo ou de humanos que se comportam como robôs, vociferando e ofendendo de maneira criminosa sem sequer se darem ao trabalho de ler o que é dito.

O curioso é que volta e meia o argumento é de que nós brasileiras fazemos mimimi (sic) porque não temos do que reclamar. Na cabeça de quem diz isso, só a mulher que vive no Oriente Médio é que pode reclamar de machismo, pois essa, segundo eles, é indefesa e não tem direito ao básico: a dirigir, votar, trabalhar, a ter voz e ser ouvida. Curiosa estratégia retórica para calar as mulheres fingindo que tudo que te importa é que elas tenham voz.

Duas coisas precisam ficar claras: ameaça na internet é coisa séria e as mulheres não vão se calar. Não podemos achar que é uma ofensa menos grave porque ela raramente se concretiza “ao vivo”. Ao fazermos isso tomamos por normal a barbárie e entendemos que a arena pública é mesmo lugar de violência e de jogar pedra na Geni. Quem compactua com esse comportamento a qualquer nível é igualmente responsável por tornar o mundo um lugar sufocante para ser mulher.

Da mesma maneira, o tempo é de revelar as desigualdades escondidas e silenciadas por séculos em nossa sociedade. Nós, mulheres (e qualquer pessoa que defenda os direitos humanos), não vamos nos deixar intimidar por essas ameaças, que nada mais são do que o atestado de que nossa voz e nosso trabalho têm efeito. Lembremos que somos maioria e que temos algo pelo qual lutar. Falar é só o começo.

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