O bar paulistano Quitandinha foi um dos assuntos mais comentados das redes sociais nas últimas semanas. Para quem não sabe, o estabelecimento foi alvo de denúncias feita por uma estudante durante o carnaval. A cliente Júlia Velo diz que, enquanto esteve no bar, ela e uma amiga foram assediadas por dois homens que também frequentavam o Quitandinha.  O que já seria um fato desconfortável, mas que piora porque, segundo Júlia, os funcionários do estabelecimento foram negligentes com a vítimas e apoiaram os assediadores.

Por enquanto, não há como saber de fato tudo que aconteceu. Mas o que dá para afirmar é que o bar vem dando uma verdadeira aula de machismo e sendo um ótimo exemplo de como a sociedade trata a mulher.

Foram necessários três textos de resposta para o Quitandinha finalmente pedir desculpas pelo ocorrido nas redes sociais, o que só aconteceu quando sua imagem já estava seriamente comprometida. Desde que a denúncia foi veiculada, o bar negou veementemente o episódio e tentou desacreditar a vítima, chegando ao absurdo de ameaçar processá-la por difamação. Com a intensa repercussão negativa, pediu desculpas pouco convincentes (mas antes tarde do que nunca!).

O problema é que uma semana depois o bar divulgou um vídeo com filmagens editadas do dia do evento em questão. O objetivo, segundo as redes sociais do estabelecimento,  é fazer com que quem assista possa “discernir e tirar suas próprias conclusões”. Na prática, o vídeo desacredita Júlia e faz seu relato parecer totalmente incoerente e mentiroso.  

Os erros são tantos que fica até difícil de organizar, mas vamos lá:

Comecemos pelo fato das filmagens estarem editadas e do bar pressupor que cenas editadas farão alguém ‘discernir e tirar suas próprias conclusões’. Não por acaso, chovem pedidos para a liberação do vídeo na íntegra, já que as imagens selecionadas pelo Quitandinha dizem o oposto do relato de Júlia.

Em segundo lugar, façamos a seguinte reflexão: por que motivo uma mulher inventaria um ‘textão-denúncia’ e o divulgaria nas redes bem no meio do feriado do carnaval, a não ser que algo realmente tivesse acontecido? O-QUE-ELA-GANHARIA-COM-ISSO? Júlia Velo não ganhou nem o direito da dúvida, já que tentam desacreditá-la.

Logo, outra pergunta também é inevitável: o que o bar ganha com a batalha contra a cliente? Será que ganha público? Porque daqui parece que a reputação do Quitandinha foi para as cucuias. O que o bar ganha ao culpabilizar a vítima e ainda duvidar da palavra de uma frequentadora? Literalmente nada. E por que insiste tanto nessa estratégia? O único vencedor disso é o machismo e a manutenção do status quo de uma sociedade profundamente injusta com as mulheres.

Depois, podemos fazer um exercício e imaginar que o que aconteceu foi exatamente o que a filmagem reproduz, sem nada além do que o que foi divulgado. Ainda assim é inegável que aconteceu um assédio, o que já deveria ser inaceitável para os donos do Quitandinha. Mas as imagens também mostram funcionários dando apoio ao agressor e não à vítima, o que reforça que não há desculpa para o que aconteceu aquele dia.  

O bar errou tanto que fez os dois assediadores da fatídica noite ficarem de escanteio. Podendo prestar ajuda à vítima ou, no mínimo, se desculpar e prometer não fazer de novo, o Quitandinha escolheu desacreditar Júlia. Negar repetidamente sua história e não dar o braço a torcer. E sejamos sinceros: se o bar tivesse admitido a culpa desde o começo, a história já teria esfriado e muito de sua imagem institucional teria sido preservada.

Essa negação enfática da violência só pode ser explicada pelo machismo estrutural da sociedade. Justo seria que Júlia fosse ouvida, considerada e que sua denúncia fosse apurada. Caso procedesse, que a prática fosse admitida e combatida. Mas há uma séria recusa em admitir que houve assédio, que isso não deve ser normal ou tolerado e uma recusa maior ainda em pedir desculpas a uma mulher. A admitir que falhamos com ela.

Isso não é exclusivo do Quitandinha, mas não diminui a gravidade do que está acontecendo. Insinuar que uma mulher é louca não traz nada de novo sob o sol, só reitera um tratamento secular. É triste pensar que, como mulher, estou sujeita a todo tipo de violência e pouquíssimo amparo depois que ela acontece. É triste pensar que mesmo nos meus momentos de descontração, tudo pode acontecer. E é por isso que acredito na versão de Júlia: sei que ela tem muito a perder e quase nada a ganhar ao se expor.