“Não sou livre enquanto existirem outras mulheres prisioneiras, mesmo que as algemas delas sejam muito diferentes das minhas” – Audre Lorde, escritora americana

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As mulheres da Argentina pararam nesta quarta-feira para protestar contra os feminicídios que ocorrem no país. O estopim foi o assassinato brutal de Lucía Perez, uma jovem de 16 anos que foi drogada, estuprada e empalada na cidade de Mar del Plata, em um dos crimes mais chocantes da história do país vizinho.

Com o mote “Ni Una Menos” (nem uma a menos), elas vestiram preto e protestaram contra a violência de gênero que assola e dizima as mulheres da Argentina. Não foi a primeira manifestação sob esse lema, que na verdade ganhou destaque em 2015. Neste ano, as mulheres tomaram as ruas argentinas em uma manifestação de emocionar, fazendo um coro tão grande quanto a violência que sofrem. O resultado dos protestos foi a criação de um órgão no governo dedicado ao assunto do feminicídio, o nascimento da ONG “Ni Una Menos”, hoje referência no país em violência contra a mulher e, é claro, um aumento da consciência social sobre o assunto. Mas o problema não cessou, então os protestos também não, e essa semana “Ni Una menos” foi mais uma vez o lema de guerra das mulheres argentinas, profundamente indignadas com a morte da adolescente.

Alguns dias antes, milhares de mulheres (também vestidas de preto) ganharam as ruas da Polônia para protestar contra uma lei que restringiria o acesso ao aborto. Tiveram sucesso: o governo polonês recuou com o projeto de lei. Dois países tão diferentes, mas com protestos tão parecidos, porque ser mulher é um ‘problema’ universal. Estamos ameaçadas em qualquer lugar do mundo, correndo constantemente o risco de sermos objetificadas, violentadas e expropriadas de nossos próprios corpos.

No Brasil, temos um feminicídio a cada uma hora e meia, um número muito maior que os 225 casos anuais da Argentina (um a cada um dia e meio). Mas nem por isso as mulheres do nosso país vizinho têm menos com o que se preocupar. Um único feminicídio é um número grande demais. É algo que não deveria ocorrer. Um a cada 36 horas é inadmissível.

Meu coração está ferido por Lucía Perez, está ferido pelas 225 que morrem na Argentina anualmente, está sangrando pelas milhares de brasileiras na mesma situação. Me toca ver as argentinas ganharem ruas e manchetes, mas me dilacera que seja para que cessem nossos assassinatos.

Lucía Perez vive. Vive dentro de cada mulher que sente medo de sair na rua por ser mulher, que sente medo de ser atacada e comemora quando chega em casa. Vive dentro de nós que não conseguimos impedir que o mundo lhe fosse tão cruel. Vive em nós para que lutemos que ela seja a última, mesmo sabendo que ela não vai ser. Chega de ter medo por ser mulher. Nem uma a menos.  

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Num clima um pouco mais positivo, uma boa notícia: A 99, empresa de táxis, disponibilizou a opção “Motorista mulher” para as usuárias de São Paulo e Rio de Janeiro. A companhia realizou previamente uma pesquisa com as usuárias e a opção de mulheres motoristas tinha sido a mais apontada para que as passageiras se sentissem mais seguras nas corridas, sinalizada por 56,5% delas. A 99, assim como empresas de transporte público, também tem registros de casos de assédio e violência sexual dentro dos táxis.