Quando um assunto relacionado a violência contra as mulheres está em voga, um dos comentários que mais aparecem é o “nem todo homem”. Vem de mulheres, mas majoritariamente dos homens que tentam a todo custo mostrar que não se pode generalizar e que afirmam categoricamente não serem eles agressores.

Esse é o argumento clássico de defesa da classe e também de deslegitimação do movimento feminista e das articulações de mulheres contra violências sofridas. Vai dizer que você nunca ouviu/leu uma dessas frases?

“Nem todo homem faz isso, não generaliza”

“Não vou nem levar em consideração uma pessoa que parte do princípio que todo homem é agressor”

“Você está dentro da casa/mente da pessoa pra saber se ela agrediu? Por que está considerando que sim?”

“Então quer dizer que só porque é um homem é um monstro opressor de mulheres? E ainda quer ser levada a sério…”

 

Bom, deixa eu contar uma coisa: nem todo brasileiro gosta de futebol, nem todo mundo gosta de pizza. Nem todo alemão apoiava o nazismo, nem todo político homem era contra o voto feminino, nem todo o Exército foi a favor da ditadura, nem toda a Igreja é contra o aborto.

É.ÓBVIO.QUE.NEM.TODO.HOMEM.É.UM.AGRESSOR. ISSO.NÃO.É.ARGUMENTO.MEU.AMIGO. Simplesmente não é.

Ao invés de usar todos seus esforços para defender que nem todo homem agride mulher (jura?), deixo a sincera sugestão para que os homens se atentem a dois outros detalhes: nem todo homem é agressor, mas toda mulher é vítima. Toda mulher mesmo, porque existem várias violências institucionais e leis discriminatórias que já nos prejudicam no ponto de partida. E nem todo homem é agressor, mas tem homem agressor o suficiente para o Brasil ter um estupro a cada 11 minutos, ou 503 mulheres agredidas fisicamente a cada hora. É muito homem agressor, é muita violência enraizada, a generalização está muito mais do que justificada. Focar no fato de que nem todo homem agride uma mulher é, mais uma vez, pautar uma regra por sua exceção, uma das estratégias mais utilizadas por quem quer desmoralizar o feminismo.

Posto isso, é importante fazer um adendo: violência contra a mulher não é só física ou sexual, e sim um espectro muito maior que envolve desmoralizar, discriminar, constranger, duvidar da capacidade, tratar diferente do que trata/trataria um colega homem e muito mais. Nesse sentido, os “homens modelo” são, de fato, exceções. Estamos todos imersos num sistema que, em todas suas frentes, desmoraliza as mulheres e do qual é muito difícil escapar. E eis aí mais um motivo pelo qual é totalmente sem sentido basear sua crítica no argumento de que nem todo homem é machista.

Fora que ser uma pessoa decente não deveria nunca ser motivo de orgulho. Não é mais do que a nossa obrigação.


E por falar em violência contra a mulher, está permitido parar o que você está fazendo e ver o novo clipe da cantora Ana Cañas: “Respeita”. A equipe pediu que as mulheres fechassem os olhos e lembrassem de uma violência sofrida e, então, olhassem para a câmera. O resultado é de arrepiar: 


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