Narrando, entrevistando, comentando, apitando, jogando e torcendo.

Um dos destaques da cobertura brasileira da Copa do Mundo da Rússia foi a equipe toda feminina contratada pela Fox Sports 2. Isabelly Morais, de 20 anos e no penúltimo ano da faculdade de jornalismo, tornou-se a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo. Fazem companhia a ela Vanessa Riche (comentarista) e a ex-goleira Bárbara, e o trio vem arrancando elogios de muitos veículos especializados em futebol.

Não que elas sejam as únicas mulheres na cobertura da Copa. Na Globo/Sportv, Fernanda Gentil e a repórter Júlia Guimarães são outras que mostram a cada transmissão que podem sim falar de futebol. O problema é que ter mulheres no meio do futebol ainda causa estranheza para muita gente.

Segundo um levantamento divulgado na coluna Notícias da TV, a transmissão da Fox Sports 2 teve a menor audiência registrada entre todos os canais esportivos que transmitiam o mundial. A interpretação da coluna é que o público “ignorou a transmissão feminina”. Discordo dessa interpretação, porque a possibilidade de ouvir uma narração só de mulheres só está disponível em um canal pago e que não é nem o principal da rede Fox Sports. Era mais do que de se esperar a baixa audiência. Fora isso, acredito que focar na “falta de audiência” ou nas mulheres “ignoradas pelo público” pode contribuir para o imaginário de que lugar de mulher não é no futebol, a não ser que estejamos falando do futebol feminino.

Mas lugar de mulher é no futebol, sim. E não só na narração, não só como repórter esportiva. Mulher é para ser comentarista, torcedora, juíza, treinadora e bandeirinha. E do futebol masculino, já que eles podem ser tudo isso no futebol feminino. Eu quero ver mulher marcar um impedimento do Neymar e não ouvir um xingamento sexista. Quero que uma árbitra dê cartão amarelo pro Dudu e continue sendo respeitada como figura de autoridade. Que um time seja treinado por uma mulher e não tenha que ouvir que perdeu ou ganhou um jogo por isso. Quero que as mulheres estejam dentro de campo e não apenas nas homenagens dos jogadores a suas mães, esposas ou filhas após marcarem um gol.

Estamos vivendo um bom começo, isso é indiscutível. Há dezenas de profissionais gabaritadas cobrindo a Copa da Rússia, o assédio não passa mais em branco. Mas ainda falta muito para o ideal, e vamos continuar batalhando nosso espaço até que esse dia chegue.  

A iniciativa da Fox Sports 2 é louvável, mas não pode ser isolada. E digo mais: melhor do que ter uma equipe só de mulheres é integrar as mulheres ao mesmo espaço que hoje é apenas masculino. É tornar absolutamente normal ter mulheres e homens comentando jogos femininos e masculinos do esporte mais popular do Brasil. Se adoramos dizer que “é mais que futebol”, passou da hora de mostrarmos que dentro da Copa também cabe respeito, igualdade, e mulher em todo canto.


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