Quando alguém quer calar uma feminista, a frase-feita mais comum de se ouvir é:  “Mas as mulheres já votam e já trabalham, querem mais o quê?”. Bom, queremos muitas coisas, porque a vida não se resume a dois itens. Mas mesmo que assim fosse, ainda teríamos muuuita coisa para melhorar, por mais que (para variar) tentem invisibilizar nossos problemas.

Com frequência vemos pesquisas atestando que a mulher ainda ganha menos do que o homem pelo mesmo trabalho – e se for negra, a desigualdade é ainda maior. É uma informação que não surpreende mais, mas que nem por isso é normal. Só que a desigualdade salarial tem muitas causas e é apenas a ponta do iceberg dos problemas enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho – problemas estes que podem ser agravados se unidos à pobreza, cor, maternidade ou outros fatores.

Essa semana mesmo um caso ganhou repercussão: uma mulher demitiu a faxineira por ser mãe solteira. A justificativa era de que esse “tipo de gente” poderia dar um mau exemplo para seu filho. Um verdadeiro show de horrores e de preconceitos, mas que ilustra como nossa sociedade não facilita para as mulheres e como ser mãe é, na verdade, um desafio e não o conto de fadas que tentam nos empurrar goela abaixo. (Para saber mais, recomendo imensamente a leitura do blog de Rita Lisauskas aqui no Estadão)

Não sou mãe e nem quero ser, mas o simples fato de ter “potencial” para ser uma já fez gente me olhar com desconfiança. Na época, eu estava em um relacionamento longo e o raciocínio era o de que logo logo eu casaria (e teria filhos). E com os filhos vêm, além da licença-maternidade, uma funcionária “menos dedicada” porque tem que dividir seu tempo com uma criança. Isso explica porque mulheres recém-casadas e/ou com filhos pequenos têm muita dificuldade para se realocar no mercado de trabalho, que não consegue entender que a obrigação de educar as crianças é tanto do pai quanto da mãe. E ainda tem deputado que defende abertamente que a mulher ganhe menos por “trabalhar menos” e ser menos produtiva…

Os desafios que a maternidade traz para a vida profissional são muitos, mas a mulher que não tem filhos também está vulnerável no ambiente corporativo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 52% das mulheres vão sofrer assédio no trabalho. Embora tanto o assédio moral quanto o sexual não sejam exclusivos para nós, somos sem dúvida a maioria das vítimas. São chefes que aproveitam da hierarquia para fazer comentários maliciosos ou colocar a mão onde não deve, são colegas que fazem comentários machistas, que excluem a mulher ou que duvidam de nossa capacidade de realizar um trabalho simplesmente por causa do nosso gênero.

Tudo isso sem contar que as áreas tradicionalmente femininas (como as ligadas ao cuidado) são muito menos reconhecidas e valorizadas do que aquelas entendidas como masculinas (historicamente as engenharias e profissões de tecnologia e exatas).

Nada disso é coincidência. Todos os fatores operam ao mesmo tempo e resultam no dado de que as mulheres ganham 74% do salário dos homens. Fazer do ambiente de trabalho um ambiente verdadeiramente igualitário e não discriminatório para as mulheres (brancas, negras, LBT, com filhos ou não) é uma tarefa complexa e que não cabe em medidas superficiais. Mas nem de longe é impossível. Como os anti-feministas adoram nos lembrar, já conquistamos muita coisa e não estamos nem perto de parar.