Não tenho a menor ilusão de que as 200 milhões de pessoas que vivem no Brasil pensem igual e façam a mesma coisa. Acho que vocês, leitoras e leitores, também não. Por que será então que quando falamos de feminismo as pessoas esperam apenas um tipo de comportamento?
Desde sempre, o feminismo é menosprezado e alvo de chacota. Nós, feministas, somos taxadas de loucas destruidoras dos costumes, das famílias e dos homens. Gente da pior espécie. É tão feio socialmente que foi e continua sendo difícil que as meninas e mulheres se digam abertamente feministas, já que há uma série de expectativas e estereótipos em torno do rótulo. Como se fôssemos uma massa homogênea e que não se alterou ao longo do tempo.

Como todo movimento político, o feminismo tem suas variações e dissidências. Um único coro não conseguiria representar todas as mulheres e abarcar todas suas pautas igualmente. E o motivo é muito simples: nós, mulheres, não somos um único grupo, somos tão diversas como todo o resto do mundo. Como pode ser difícil entender isso?

Pela falta de representatividade no movimento “mainstream” surgiu o feminismo negro, o transfeminismo, as feministas lésbicas e bissexuais. Há o feminismo interseccional, o radical, o movimento de mulheres trabalhadoras, o ecofeminismo…. Há muita coisa e muita gente diferente dentro do mesmo nome feminismo.

Dá para ser depilada, vaidosa e paciente. Dá para ter todos os pelos do corpo, para ter muita raiva (temos motivos de sobra). Dá para achar que não temos obrigação nenhuma de reeducar os homens para desconstruir seu machismo, dá para achar que falar com eles faz parte do jogo. Todo mundo vai ter um jeito próprio de ser feminista.

O feminismo se renova e se constroi a cada dia, assim como as pessoas que militam nele. Estamos todas fazendo o nosso melhor para, juntas, construir uma sociedade menos opressora. A meu ver, não existe um único jeito de ser feminista e nem um único jeito certo de lutar, até porque os contextos de luta são os mais variados. Embora eu tenha mais afinidade com algumas correntes do que com outras, tenho certeza que a diversidade só vem para enriquecer o movimento.

Só não dá para esquecer algumas coisas:

– Se você é feminista, você luta pela liberdade e pelo empoderamento de todas as mulheres.
– O seu feminismo não pode ser excludente e servir para libertar apenas você. Enquanto houver uma mulher sofrendo violência de gênero, há motivo para lutar.
– Se você é feminista, você não pode desmerecer a luta de outras mulheres por ser diferente da sua.
– Se você é feminista, você tem que saber ouvir e reconhecer os seus privilégios.

Sempre vão existir os críticos do feminismo e que tentarão nos pintar como bruxas mal-amadas. É um sinal que estamos incomodando e nós temos mesmo que incomodar. A diversidade interna não é ruim, é apenas um reflexo de nossas próprias diferenças. Têm que existir. E nós vamos continuar existindo. Aos bandos, para desespero de quem tenta nos calar.

Ilustração: Stellar Leuna (Reprodução/Instagram)

Ilustração: Stellar Leuna (Reprodução/Instagram)