Crédito: Ana Castro (Abucandjaba)

Crédito: Ana Castro (Abucandjaba)

Cinco. O Brasil é o 5° maior país do mundo, o 5° mais populoso, é cinco vezes Campeão do Mundo. É também o 5° país que mais mata mulheres apenas por elas serem mulheres. São quase 5 (4.8 para ser mais exata) homicídios a cada 100 mil mulheres segundo o Mapa da Violência de 2015, cerca de 13 assassinatos por dia. Outra pesquisa, do IPEA, dá um número parecido: um feminicídio a cada 90 minutos no país, o que significa que, enquanto eu escrevia este texto, alguém foi assassinada, provavelmente por alguém da família, e outro alguém está com os minutos contados.  

O mais chocante é que mesmo tendo números estarrecedores, ainda se nega o feminicídio no Brasil. Ainda é mimimi de feminista, conversa para boi dormir. Ninguém morre por ser mulher. Na cabeça de muita gente, a não ser que o assassino (que em geral é mesmo homem) diga “você é mulher e merece morrer” ou “estou te matando porque você é mulher” em alto e bom som, não existe crime de gênero.

O feminicídio não se dá assim. Um crime é de gênero quando o gatilho diz respeito a alguma expectativa que recai sobre as mulheres. É quando uma mulher termina um relacionamento e o homem não é capaz de aceitar, é quando ele é traído, perde a guarda dos filhos, quando uma mulher usa uma determinada roupa, maquiagem. Quando a mulher sai de casa, estuda, dança. Os “motivos” parecem variar, mas na verdade são sempre o mesmo: um homem incapaz de aceitar que uma mulher não lhe pertence e que é um ser humano com vontades próprias. O motivo do crime nunca é a mulher terminar o relacionamento, é o homem ser incapaz de enxergá-la como uma pessoa.  

E ainda assim há quem diga que crime de gênero não existe.

Nem mesmo o autor da chacina em Campinas negou a existência do feminicídio como um fenômeno social. Em sua carta, ele disse: “As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade” (sic). O escândalo que abriu o ano escancarou o ódio contra mulheres de uma maneira impressionante: praticamente toda mulher citada na carta do assassino foi chamada de vadia. Por motivos diferentes, porque para ser vadia basta ser uma mulher que desobedece.

O feminicídio nada mais é do que o extremo do que o patriarcado nos ensina todos os dias: tenha as mulheres sob controle, nem que seja preciso usar a força. E nós estamos cada vez mais extremados. O assassino desse caso em questão não disse nada de muito diferente do que nós feministas recebemos de ofensas todos os dias. Não significa que todos que nos xingam são assassinos em potencial, mas significa que nossa sociedade aceitou e normalizou o discurso de ódio de uma maneira inaceitável.  

O assassinato de Isamara Filier, seu filho e de outras dez pessoas foi motivado pelo machismo, não tem nem como esconder. Foi um caso que nos chocou e que nos fez refletir, mas nem todas as mulheres que têm o mesmo destino viram notícia. E não deveria precisar para que nos indignássemos. Enquanto continuamos negando a existência do feminicídio como fenômeno social, milhares de mulheres continuam morrendo com a complacência de quem diz que é mimimi.

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Confira o trabalho de Ana Castro (Abucandjaba) aqui.