Algumas das participantes do Mercury 13. A imagem aparece no documentário homônimo da Netflix.

Durante a corrida espacial, com os EUA ainda atrás da União Soviética, 13 mulheres aviadoras com milhares de horas de voo acumuladas submeteram-se a uma bateria de testes físicos e psicológicos como parte de um treinamento para serem enviadas ao espaço. Os resultados, especialmente do teste psicológico, superaram os dos homens, demonstrando muita resiliência das candidatas. Até que sem mais nem menos o programa foi cancelado pela NASA. O resultado nós já sabemos: todas as pessoas que pisaram na lua são homens e os EUA não levaram uma mulher para o espaço antes de 1983.

Essa é a história contada pelo documentário “Mercury 13”, produção da Netflix que está no catálogo desde o dia 20 de abril e que vale muito a audiência. Ao rememorar a trajetória das treze mulheres do projeto e de outras grandes aviadoras de seu tempo, o filme mostra em detalhes os mecanismos de exclusão das mulheres da História. Todas as artimanhas para que fôssemos sumariamente ignoradas, ainda que sem qualquer embasamento científico.

Para poderem sequer sonhar em ir para o espaço, as mulheres deveriam ter cumprido uma série de exigências, então não pense que estávamos falando em enviar qualquer pessoa para o espaço. Só se submeteram aos testes aviadoras com no mínimo 1500 horas de voo, para início de conversa. E mesmo tendo tido até oito filhos, como era o caso de uma das participantes, elas passaram em todos os rigorosos testes físicos.

Os experimentos foram conduzidos por um médico da NASA, Randy Lovelace, de maneira independente aos que a agência espacial americana conduzia. Isso porque a NASA sequer cogitava levar mulheres ao espaço. Foi com os resultados em mãos, que mostravam um desempenho superior ao masculino, que a ideia foi apresentada aos chefes de Lovelace, que negaram imediatamente. O desespero em parar as mulheres foi tamanho que o presidente da época, Lyndon Johnson, pessoalmente proibiu que o projeto seguisse em frente.

Azar dos americanos, já que em 1963 a URSS enviou Valentina Tereshkova em um voo que orbitou a terra 45 vezes e garantiu mais uma vitória para a União Soviética na corrida espacial.

Elas ainda lutaram bravamente para reverter a proibição, mas foi em vão. Enquanto isso, figuras públicas do governo americano manifestaram-se dizendo que eram a favor de levar as mulheres ao espaço “no lugar dos chimpanzés”. Era esse o nível da humilhação sofrida por quem, apesar da coragem, talento e experiência, cometeu o pecado de nascer mulher.

O filme mostra também a importância dos homens aliados à luta das mulheres, já que o próprio Randy Lovelace foi quem teve a ideia de levá-las ao espaço e possibilitou os testes. E, é claro, mostra a fragilidade do ego masculino e o verdadeiro pavor de ser superado por uma mulher.

O caso das mulheres que poderiam ter sido astronautas mas não foram é apenas um entre tantas histórias reais, muitas delas ainda ocultas. Apenas uma das ocasiões em que a humanidade preferiu retardar o seu avanço em nome da subjugação de metade de sua própria espécie. Em iguais condições, quantas de nós poderíamos ter sido as primeiras?


Se você gostou de Mercury 13, pode gostar também de:

Mission Blue, documentário que rememora a história da oceanógrafa Sylvia Earle, um dos maiores nomes do campo. Grande ativista pela preservação dos oceanos, Sylvia (hoje com 82 anos e ainda mergulhando) também abriu muitos caminhos para as mulheres na área. Disponível na Netflix.

Estrelas Além do Tempo, filme aclamado pela crítica que conta a história de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, três cientistas negras da NASA que, apesar dos preconceitos e discriminações institucionais, fizeram toda diferença na corrida espacial americana.


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