No início da semana, a atriz norte-americana Megan Fox anunciou sua terceira gravidez. Em muitos sites do Brasil e do mundo o que foi manchete é não se saber quem é o pai da criança, já que, ao menos publicamente, Fox não está em nenhum relacionamento. A “ausência” de pai ganhou quase a mesma atenção que a própria notícia da gravidez, e não em um tom elogioso. Isso porque em 2016 ainda é chocante ver uma mulher ser mãe quando não é casada, com seus  20 ou 30 anos e com todo o apoio da família.

O episódio traz mais uma vez à tona os padrões duplos que usamos para homens e mulheres, especialmente no âmbito da sexualidade. Basta lembrar que quando o jogador Neymar anunciou que seria pai, ninguém estranhou que a mãe da criança não fosse namorada do rapaz. Pelo contrário: as piadas e chacotas foram direcionadas a ela, que teria dado “golpe da barriga” ou “acertado na loteria” com a gravidez.

Para o pensamento machista e patriarcal que molda a nossa sociedade, cabe apenas aos homens o direito à sexualidade livre (desde que heterossexual) e ao prazer. Às mulheres, cabe o papel de objeto para o prazer masculino e de zelar para que uma relação nao acabe em gravidez – e se acabar, é dela a responsabilidade pela criança. É uma configuração já muito antiga, mas que sempre se adapta e se transforma para continuar dominante.

Quando a pílula anticoncepcional foi lançada, na década de 60, causou revolta porque dava às mulheres o poder de controlar sua concepção e, talvez mais importante, dissociava o sexo da reprodução. Foi sem dúvida revolucionário para as mulheres. Agora, 50 anos depois e com a pílula vastamente disseminada, pode ser até uma armadilha: muitas vezes cabe totalmente à mulher o cuidado para não engravidar. E se engravidar, aborto nem pensar, já que “existe informação o suficiente” e a mulher deve arcar com as consequências de não ter se prevenido – mesmo que os métodos anticoncepcionais não funcionem em 100% dos casos.

Muito longe de ser contra a pílula, uso esse exemplo porque mostra como um sistema opressor se adapta às mudanças para no fim das contas continuar oprimindo e dividindo papéis, direitos e responsabilidades de maneira extremamente desigual.

Não é porque podemos votar, trabalhar e não passamos pela mutilação genital feminina (cortes no clitóris, grandes ou pequenos lábios e até mesmo costura do canal vaginal muito comuns em regiões da África e Ásia) que não temos os corpos e as vidas controladas. Se assim fosse, uma mulher engravidar de um parceiro ocasional, como pode ser o caso de Megan Fox, não causaria um escândalo. O único absurdo seria se o pai não assumisse uma responsabilidade que também é dele.

A manchete sobre a gravidez de Megan Fox tem muito mais violência contra as mulheres do que se julga na primeira leitura. Ela reflete uma mídia e uma sociedade desesperadas para controlar a vida sexual feminina e mostra que, apesar dos brutais avanços das últimas décadas, ainda falta muito para sermos efetivamente respeitadas e tratadas com igualdade. E é exatamente por isso que não podemos parar de brigar.