O mundo girava normalmente, até que uma mulher observou que não podia votar, mas seu marido sim. Ela achou injusto e comentou isso com suas amigas, que comentaram com as outras mulheres de seus círculos sociais, espalhando um desejo coletivo de poder votar e participar das decisões políticas de seu país. Essas mulheres resolveram organizar uma passeata por seus direitos, demandando o direito ao voto.

A passeata correu bem e civilizadamente, sem maiores conflitos. A iniciativa, aliás, foi muito bem sucedida, já que os homens sensibilizaram-se com a causa feminina e perceberam que era injusto negar o voto a metade da população. Não haviam percebido antes porque ninguém os havia alertado para essa desigualdade. Bastou, portanto, um pouco mais de negociação para resolver os pormenores e as mulheres conquistaram enfim o sufrágio, podendo votar e ser votadas.

 

Foi assim que aconteceu, certo?

 

Hahahahahahahahahahahahahahahahahahaha. Hahahahahahahahahahahahahaha. Faz-me rir.

 

O voto e qualquer outro direito de populações historicamente marginalizadas só veio depois de muita batalha. Treta, explosão, barricada, prisões, greves, abuso de poder, agressão e mortes de ativistas. Todos os direitos das mulheres dos quais consigo me lembrar precisaram de ao menos uma dessas coisas para ser implementados.

A tão celebrada Revolução Francesa (que não teve nada de pacífica) guilhotinou Olympe de Gouges, que tentava pontuar os direitos das mulheres em meio ao dos homens, já que as conquistas da revolução simplesmente ignoraram as mulheres.  

Na Inglaterra, Emily Wilding Davison morreu protestando pelo direito de votar. As sufragistas, cansadas de ter suas pautas ignoradas pelos homens no poder, abriram mão do pacifismo para ver se quem sabe assim eram ouvidas, já que as vias diplomáticas nunca se mostraram interessadas em incluir as mulheres.

Malala Yousafzai, no Paquistão, usou a palavra incansavelmente para garantir que as meninas de seu país tivessem acesso à educação. Levou um tiro no rosto.

Lei Maria da Penha? Só temos porque o Brasil foi punido internacionalmente por negligência com a farmacêutica que dá nome à lei e que sobreviveu a duas tentativas de assassinato pelo então marido.

Nenhum direito foi ganho, já começa por aí. Foram todos conquistados depois de muita luta e insistência, quando não dava mais para negar. Água mole em pedra dura, porque o establishment não quer mudar sua estrutura.

Seria o melhor dos mundos se o grupo no poder simplesmente percebesse as opressões e desigualdades quando fosse alertado, tentando a partir desse momento alterar o desequilíbrio. Mas isso envolve perder privilégios, então quase ninguém está interessado. É por isso que lutamos sem parar, ainda que “apenas” na oratória. E é por isso que sempre tentam desqualificar o que dizemos e fazemos.

Ao descrever esse processo, nem de longe estou inventando a roda ou dizendo algo inédito. Mas acho importante que nunca nos esqueçamos dele por dois motivos: nós ativistas precisamos lembrar que a luta é parte fundamental de nossas escolhas (não a luta armada, mas a luta enquanto levante contra o status quo); e quem acha que tudo se resolve apenas no bom senso também precisa fazer uma retrospectiva e ver o quanto teríamos avançado se dependêssemos apenas da boa vontade dos digníssimos homens brancos – barões, viscondes, senhores de escravos – para progredir socialmente.

Nem toda luta resulta em vitória, mas não há vitória sem luta.

“Minha mulher se juntou ao movimento sufragista e eu tenho sofrido desde então”, diz o cartaz de 1900. Um século depois, vemos que foi EXATAMENTE ISSO que aconteceu na sociedade (ironia).