Brasil: uma mulher morta a cada 90 minutos, de acordo com o Mapa da Violência. (Foto: Fernando Frazão/Fotos Públicas)

Cláudia Zerati, Geisa Feitosa, Aline Camilo, Mizaelly Mirelly, Nathalia Aparecida, Celina Mascarenhas, Síria Souza, Maria do Carmo Cândido. Todas essas mulheres foram vítimas de feminicídio no estado de São Paulo na última semana, a maioria delas na capital. Todas foram mortas por companheiro ou ex-companheiro indignado com fim da relação, algumas na frente dos filhos. O assassino de uma matou e foi para o bar. O de Cláudia se matou em seguida, o de Celina fugiu com a filha.

Por um quase milagre, os casos estão sendo conduzidos pela polícia como feminicídio (ou ao menos é o que indicam as declarações), o que gerou um alerta para a frequência com que o crime ocorre no Brasil e mais especificamente em São Paulo. Um alerta importante, é claro, mas que não é nenhuma novidade.

As pesquisas, levantamentos e dados policiais de feminicídio são divulgados exaustivamente várias vezes ao ano; o famoso dado de que o Brasil é o 5° país do mundo que mais mata mulheres já foi dito tantas vezes que até perdeu o significado; as feministas apontam para esse problema desde sempre; a Lei Maria da Penha existe há 11 anos e a do feminicídio há dois. Todo mundo sabe que o assassinato de mulheres por questões de gênero é um problema e mesmo assim ele continua acontecendo, e inclusive aumentando em alguns casos.

Não há outra explicação que não uma enorme conivência social. Fingimos que nos importamos com os casos que ganham manchetes – até o fazemos durante um dia ou outro – mas logo depois tudo volta ao normal. As mulheres continuam sendo agredidas e ameaçadas, as delegacias continuam não atendendo as queixas, desestimulando o registro do boletim de ocorrência, subestimando o perigo que elas correm. Em suma, as mulheres continuam morrendo de mortes anunciadas, os assassinos continuam saindo praticamente impunes.

Uma das mulheres assassinadas em São Paulo nos últimos dias já havia se dirigido à Delegacia da Mulher - e não foi bem atendida.

Uma das mulheres assassinadas em São Paulo nos últimos dias já havia se dirigido à Delegacia da Mulher – e não foi bem atendida.

Quem acompanha minimamente o tema de violência contra a mulher não demora a perceber que por mais importante que sejam nossas leis, elas pouco adiantam se não são colocadas em prática. É sabidamente um grande obstáculo para que a efetivação dos nossos direitos. O ponto é: como esperar que nossa lei seja cumprida quando os próprios operadores da lei são os agressores e assassinos? Cláudia Zerati era juíza de classe alta e foi morta por seu marido delegado. Celina foi morta por seu ex-marido policial militar. Quantas outras mulheres eles já não colocaram em risco sem apertar nenhum gatilho, mas ‘apenas’ ignorando a violência misógina que as acometia?

Como esperar que nossos direitos sejam efetivados se o Poder é ocupado praticamente só por homens? Homens esses que nos reduzem a objetos ou a sujeitos menos dignos de direitos.

Tratar os casos de Cláudia, Geisa, Celina e de todas as outras que continuam morrendo todos os dias  como se fosse novidade é um insulto a memória de todas elas. São mulheres que ainda deveriam estar vivas, bastava que o Brasil levasse a sério as informações que já tem. Por outro lado, igualmente desrespeitoso com suas memórias é deixar de se chocar com o feminicídio. Mesmo que seja desanimador ver esses crimes se repetindo, a indignação tem que falar mais alto que a resignação.

Morrer por ser mulher não é normal. Nunca vai ser.


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