Mayara Amaral.

Oi, Mayara. Não chegamos a nos conhecer, mas cruzei com você pelo Facebook horas depois de ter escrito um texto sobre feminicídio. Nesse texto eu comentei que nossa sociedade faz de tudo para negar a motivação de gênero dos feminicídios e transformá-lo em crime comum e, por infeliz coincidência do destino, sua história apareceu por mim compartilhada pela sua irmã Pauliane.

Sabe, Mayara, por muitos motivos eu fiquei muito tocada quando li o que te aconteceu. Acho que você sabia disso, mas o feminicídio acontece aos montes no Brasil – desde que você se foi, já nos deixaram também cerca de outras 100 mulheres, e nem todas ganharam as manchetes. Mas foi a sua história que cruzou comigo, e eu me vi em você. Eu também sou branca, 20 e poucos anos, graduada em universidade pública com um trabalho final que pretendeu combater a desigualdade de gênero. Eu também sou feminista e, assim como você fazia, falo abertamente sobre isso. Acho que nós teríamos nos dado bem.

Me identifiquei tanto que, confesso, olhei seu perfil depois de ler o post da sua irmã. Confirmei algumas semelhanças entre nós. Nós líamos as mesmas coisas, acessávamos o mesmo conteúdo. Acho que se o que aconteceu com você tivesse acontecido comigo você também ficaria indignada. Nenhuma mulher merece passar por isso.

Por isso, Mayara, me sinto na obrigação de te escrever, ainda que infelizmente minhas palavras não cheguem até você. Nunca nos conhecemos, mas sermos mulheres nos conecta em muitas coisas, especialmente em viver a injustiça e desigualdade do mundo. Senti a dor da sua partida e ainda dói que você tenha passado por isso, que o mundo continue te desrespeitando mesmo depois de tudo. Eu não sei o que dizer exceto que eu sinto muito. Sinto muito que o mundo seja essa merda e que não tenha sido capaz de te dar uma vida decente. Que tenha te faltado tempo para continuar resgatando a memória das mulheres violonistas, para continuar convivendo com sua família e seus amigos, para errar e acertar durante seu percurso.

Queria poder te dizer que vai ser uma lição e que, após a investigação da sua morte, vamos solucionar a desigualdade de gênero e a vida das mulheres vai passar a valer mais. Mas, para ser sincera com você, eu não acredito nisso. Também sinto muito por isso. Espero que, ao menos, continuem falando de você até te dar a memória que você merece e que então você descanse em paz.

Não acredito, infelizmente, que a sua história vá ser um divisor de águas para o país se conscientizar sobre o feminicídio, mas quero acreditar que se ela mudar a percepção de algumas pessoas, sua memória será preservada com mais justiça. Então eu vou tentar falar de você e de quantas outras eu conseguir, ainda que eu também me pergunte quase todos os dias de que adianta “só” escrever sobre.  

Mayara, eu sei que não preciso te dizer isso, mas você não mereceu o destino que teve. Eu quero te dizer de novo, e aos seus familiares e amigos também, que sinto muito que o mundo tenha sido essa merda, que sua vida tenha acabado dessa maneira. Foi feminicídio, não vou deixar que ninguém esqueça disso. De você e das outras milhares de vítimas que nós acumulamos pelo descaso.

Foi você, podia ser eu, são tantas outras também. E você se importava. Prometo que vou fazer de tudo para honrar a memória. Vá em paz. 


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