Ilustração: Helô D'Ângelo

Ilustração: Helô D’Ângelo

Dia 25 de novembro é o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Neste blog, discutimos o assunto o ano inteiro, justamente por ser tão recorrente em nossas vidas. E infelizmente também em nossas mortes.

Longe de termos existências iguais em direitos e responsabilidades, homens e mulheres diferenciam-se também nas mortes, já que até mesmo no fim da vida pronunciam-se as marcas da desigualdade de gênero: eles morrem em acidentes, em confrontos com a polícia, no espaço público. Nós mulheres morremos dentro de casa, assassinada por pessoas de confiança e com uso de violência extrema.

O Mapa da Violência de 2015, nossa fonte mais segura quando o assunto é feminicídio, apontou que 50,3% dos assassinatos de mulheres registrados em 2013 foram cometidos por familiares. Metade! E 33,2% deles foram obra de parceiro ou ex-parceiro da vítima. É muito claro que o assassinato de mulheres em nome da honra da família, reflexo de uma cultura patriarcal, não é exclusividade de países do Oriente Médio – sempre muito utilizados como piores exemplos de tratamento à mulher. Precisamos olhar para nossa própria realidade e entender de uma vez por todas que a cultura brasileira assassina mulheres.

Como se isso não fosse grave o suficiente, todas as pesquisas também apontam uma diferença fundamental entre as mortes deles e delas: os meios da violência. Mais de 70% dos homens morrem com armas de fogo, porcentagem que não chega nem a 50% entre as mulheres (também de acordo com o Mapa da Violência). Nós morremos com armas brancas, que indicam proximidade – inclusive corporal – da vítima. E quando o instrumento utilizado é a arma de fogo, muitos são os tiros à queima-roupa, que também indicam uma relação de confiança entre assassino e assassinada.

Vejam o seguinte trecho da pesquisa “A violência doméstica fatal: o problema do feminicídio íntimo no Brasil”, de 2015:

“COMO MORREM AS MULHERES? Faca, peixeira, canivete. Espingarda, revólver. Socos, pontapés. Garrafa de vidro, fio elétrico, martelo, pedra, cabo de vassoura, botas, vara de pescar. Asfixia, veneno. Espancamento, empalamento. Emboscada, ataques pelas costas, tiros à queima-roupa. Cárcere privado, violência sexual, desfiguração. Quando se volta o olhar para a maneira pela qual foi infligida a violência, chamam a atenção a diversidade dos instrumentos usados no cometimento do crime e a imposição de sofrimento às vítimas anteriormente à execução.

A promotora Valéria Scarance, do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, disse, comentando dados de levantamento divulgado pela CBN: “Os homens matam, em regra, quando recebem o não definitivo. Em um dos casos, o indivíduo tinha uma faca e uma arma. Ele usou a faca e a arma para dar coronhadas nela, pois realmente queria que ela sofresse. Ele poderia tê-la matado com um tiro, mas não. Ele preferiu as coronhadas.”

É isso: nós mulheres somos executadas por conhecidos e dentro de casa. O lugar que deveria ser nosso refúgio é, na verdade, onde mora o perigo. Essas constatações não são mais novidade, mas os números do feminicídio continuam altos e nossas instituições continuam falhando em defender a vida das mulheres.

O feminicídio é só a ponta, o extremo da violência, mas somos cercadas por pequenas violências o tempo todo, a vida toda. Somos atingidas por símbolos, por leis, por socos e tapas. Uma vida feminina totalmente livre de violência ainda é, para mim, ficção científica. Por isso, no dia 25 de novembro e em qualquer época do ano é hora de se levantar contra ela.