Ontem foi Dia Internacional da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha. Elas têm muito o que lutar: no Brasil o assassinato de mulheres negras não para de crescer. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Experimente ver campanhas feministas internacionais, que atentem para os números locais de violência contra a mulher. Se você tiver uma noção de como é a situação no Brasil, a comparação vai ser inevitável – e deprimente.

Essa semana mesmo vi uma campanha da Espanha que citava o (absurdo) dado de que 49 espanholas tinham sido mortas pelo companheiro no ano anterior.

49.

Na Argentina, os cerca de 300 feminicídios anuais foram o estopim do #NiUnaMenos, que ganhou destaque no mundo inteiro e trouxe os holofotes para o feminismo da América Latina.

Lembro-me de ler uma matéria sobre a Inglaterra em que as feministas citavam que por lá uma mulher era morta a cada dois dias por seus companheiros.

No Brasil, beiramos 5.000 (cinco mil) mortes anuais de mulheres. É uma a cada uma hora e meia, mais ou menos. Não é morte em acidente de trânsito, por infarto ou cair da escada, é morte violenta. Assassinato por ser mulher. Feminicídio. E que não é explicada apenas pela enorme população brasileira.

5.000

E não pense você que o número vem diminuindo, porque os Mapas da Violência mostram o contrário: matamos cada vez mais mulheres, principalmente negras e indígenas.

Também não pense que isso é porque o movimento feminista está de braços cruzados em meio a essa execução em massa. Pelo contrário, mulheres lutam para escancarar a realidade da violência doméstica no Brasil há décadas. Quando eu nem sonhava em nascer os movimentos desafiavam a ditadura e o machismo para dizer que “quem ama não mata”. E deu resultado, já que o Brasil passou a ser signatários de diversos acordos internacionais, promulgou a Lei Maria da Penha e a do Feminicídio, entre outras.

Surreal é que apesar de tudo isso ainda não tenhamos conseguido, enquanto sociedade, frear a morte das mulheres. Continuamos com números tão bárbaros como de trinta anos atrás, com tintas de racismo ainda mais carregadas.

Os 49 feminicídios espanhóis significam 49 mortes absolutamente evitáveis, grotescas e indesculpáveis. Mas se o Brasil chegasse a esse índice teríamos muito menos do que reclamar.

Infelizmente, é provável que isso fique só em sonho, porque falamos de um país onde 1800 soldados armados entram numa favela carioca em um dia de semana e isso não é sequer o título da matéria que relata a operação. É uma informação como outra qualquer, do mesmo peso que a previsão do tempo.

Falamos de um país líder em assassinato de pessoas LGBT em todo o mundo. Um país onde é sabido que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de meros 35 anos e isso sequer motiva políticas públicas de Estado para reverter essa situação.

A vida no Brasil não vale nada, especialmente a vida de quem sempre morreu: mulheres, negros e negras, LGBT, pobres. Por aqui, se você é indesejado, não espere solidariedade, espere uma contagem regressiva.

>> FAQ: COMO AJUDAR UMA MULHER EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA.


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