Início de ano é a época das premiações mais importantes da música, do cinema e da TV, todas com cobertura exaustiva da imprensa de todo o mundo. E nos tapetes vermelhos, as mulheres nunca conseguem escapar da pergunta: “O que você está vestindo?”.

A questão é religiosamente repetida para cada celebridade feminina, em conjunto com câmeras exclusivas para as unhas e enquetes de quem esteve melhor ou pior vestida. Enquanto isso, pouquíssimos homens são perguntados sobre suas roupas e todos conseguem ter o “privilégio” de falar sobre seu trabalho e expectativas para o evento.

Essa diferença de tratamento nada mais é do que a velha estratégia de colocar mulheres como objetos decorativos e de enfatizar a obrigação de estarmos impecáveis. Não há nada de novo em reforçar que é essencial uma mulher estar bem-vestida e maquiada e que, caso não o faça, será muito julgada. O triste é que a relevância do trabalho das mulheres em Hollywood vem crescendo nos últimos anos, mas muitas premiações parecem ainda não ter absorvido isso. Continuam tratando mulheres como se o que elas tivessem de mais importante a oferecer fosse a aparência.

E isso não é papo de blogueira implicante. As próprias atrizes, cantoras e diretoras demonstram cada dia mais incômodo com o tratamento recebido e criam iniciativas para tentar mudar a situação. A mais famosa é a #AskHerMore (algo como “Pergunte mais a ela”), que ganhou destaque na cerimônia do Oscar 2015 e que continuou nas premiações seguintes. A #AskHerMore basicamente pede que as mulheres sejam questionadas para além do que estão vestindo e dá até sugestões de perguntas. Outras iniciativas foram na mesma linha e ganharam adeptas de peso – até a cantora Britney Spears surpreendeu e participou durante o Emmy 2015.  Na cerimônia do Globo de Ouro do último domingo a campanha voltou com força, mas os entrevistadores, em sua maioria, ainda deixaram a desejar.

Tina Fey e Amy Poehler, que apresentaram o Globo de Ouro por 3 anos

Tina Fey e Amy Poehler apresentaram o Globo de Ouro por 3 anos [Foto: Divulgação]

E tudo isso sem falar na representatividade das mulheres nas premiações: tirando as categorias obrigatoriamente femininas – como melhor atriz – é raro o reconhecimento para diretoras, produtoras e outros membros femininos de categorias técnicas. E para mulheres negras, latinas, asiáticas ou de outras minorias os prêmios são ainda mais raros.

A desigualdade nas grandes premiações é apenas a ponta do iceberg. O mundo de Hollywood tem problemas sérios de desigualdade de gênero e diversidade de um modo geral. Problemas que acabam ficando evidentes nos eventos televisionados para o mundo todo, mas que incluem diferença salarial escancarada, falta de representatividade para minorias, papéis sem profundidade, pouca diversidade na frente e atrás das câmeras.  

A primeira premiação do ano, o Globo de Ouro, decepcionou nesses quesitos. Não só o apresentador Ricky Gervais fez piadas para lá de machistas e transfóbicas, como as mulheres ficaram apagadas na premiação – exceção ao discurso louvável de Eva Longoria e America Ferrera. Mas há indícios de que a situação vai melhorar, ainda que aos poucos. A força do #AskHerMore no Oscar 2015 é exemplo disso. O maior evento do cinema em 2015 também ficou marcado por discursos em prol da igualdade (já que a organização do evento nem de longe se preocupou com isso); o Grammy 2015 teve discurso do presidente Barack Obama e apresentação da cantora Katy Perry contra a violência que atinge as mulheres; as piadas sexistas encontram cada vez menos aceitação nesse tipo de premiação, ao passo que as comediantes feministas vêm ganhando terreno.

Só nos resta esperar e torcer para que a tendência se mantenha e que as mulheres brilhem muito nas cerimônias que vêm aí.

* Próximas premiações: SAG Awards (30/01), Bafta (14/02), Grammy (15/02), Oscar (28/02)

** Para discutir especificamente feminismo e tópicos de cultura pop, produzo, em parceria com duas amigas, o podcast Pop Don’t Preach, que pode ser acessado aqui