Em visita a Porto Alegre, o deputado federal Jair Bolsonaro foi o alvo de um protesto do Levante Popular da Juventude. Recebeu uma chuva de purpurina na cabeça enquanto os manifestantes gritavam “racista”, “machista”, “fascista” e “homofóbico”.

O deputado é famoso por suas pautas conservadoras e por sua postura enérgica em alguns assuntos. Por exemplo, em 2014 disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário “porque ela não merecia”. Em 2009, provocou indignação ao pendurar um cartaz com os dizeres “Quem procura osso é cachorro”, referindo-se ao pedido de abertura de arquivos da ditadura militar. Jair Bolsonaro também atua fortemente contra pautas LGBT e de direitos das mulheres.

O ‘purpurinaço’ foi, sem surpresa alguma, mal recebido pelos apoiadores do deputado. Os argumentos são que foi um ato desrespeitoso e que, se fosse o contrário (o deputado ofendendo gays), seria considerado homofobia. Isso poderia ser verdade se o protesto de terça-feira tivesse sido direcionado ao deputado pelo fato de ele ser heterossexual, o que não foi o caso. O deputado foi alvo de um protesto irônico por suas posturas conservadoras. Foi atingido pelo símbolo máximo daquilo que busca reprimir.

 

Em 2010, um jovem homossexual que andava tranquilamente na Avenida Paulista foi atingido por uma lâmpada. Em 2014, 326 gays, lésbicas ou travestis perderam a vida no Brasil em função de suas identidades. Há ainda ínumeros casos de lésbicas estupradas ‘para virar mulher’, nos chamados estupros corretivos.

Em 2015, aconteceu um estupro a cada 11 minutos no país, vitimando majoritariamente mulheres. E tramita pela Câmara o PL 5069, que dificulta o acesso ao aborto legal para as vítimas de estupro e também o acesso à pílula do dia seguinte, ferindo o que o Brasil e o mundo entendem como direitos humanos há pelo menos duas décadas.

Tudo isso acontece em plena luz do dia, em horário comercial, nas ruas, nas casas e no Congresso. São ações que violentam e diminuem uma parcela expressiva da população que vê seus direitos fundamentais serem ameaçados. As consequências são muito maiores do que purpurina na roupa o resto do dia.

Infelizmente, não há nada de irônico em tudo que acontece contra mulheres, gays, transexuais, travestis, negros e jovens no Brasil. A violência que os atinge não é apenas simbólica. É concreta, física e mata. Um ‘pupurinaço’ no meio de uma entrevista talvez não seja o mais educado dos atos, mas nem era para ser. Era para chamar a atenção para o que está acontecendo no país, para lembrar ao deputado que há sim quem esteja atento a essas violências.

Protestos são feitos para incomodar. No caso do purpurinaço, o incômodo foi receber uma ‘chuva’ de algo que simboliza uma população marginalizada. Fez com que os que atuam contra essa população ficassem escandalizados. Sentiram-se violentados em seu espaço. Queria eu viver numa sociedade em que a maior violência que pudesse me acometer fosse uma chuva de purpurina.