Assisti ao filme “Estrelas Além do Tempo”, que conta a história de 3 funcionárias da NASA da década de 60. Mulheres negras em uma época de discriminação institucionalizada, elas encontram diversas barreiras em seu caminho e têm que constantemente provar seu valor. São mulheres que precisam fazer duas vezes melhor para ter metade do reconhecimento de outras pessoas. O filme recebeu 3 indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Filme, e mexe com a gente do começo ao fim. Entre muitas coisas, escancara o que é o privilégio de ser branco[a] e/ou de ser homem, o racismo e como é preciso ter coragem para ser mulher e negra no mundo.

Desde que foi lançado nos Estados Unidos, já há alguns meses, o filme deu o que falar. Não sem razão: trazia a representatividade para novos níveis. Meninas e mulheres negras viam-se nas telas de cinema como engenheiras, matemáticas e programadoras, em oposição aos tradicionais papéis de empregada doméstica ou escrava. Eram as protagonistas e não coadjuvantes de uma bela história. E isso faz toda a diferença.

Quem está acostumado a ser representado (cinema, TV, literatura, artes, etc) – leia-se homens brancos heterossexuais –  não entende o poder e a importância de se enxergar num ídolo ou personagem inspirador. E é justamente por isso: estão acostumados. Privilégio é uma coisa que, em geral, só se percebe quando não se tem. É por isso que nós, mulheres, comemoramos a atual protagonista de Star Wars, o remake de Caça-Fantasmas, indicações ao Oscar… Porque finalmente estamos presentes (de maneira positiva) nos grandes símbolos culturais.

Mas isso também não vale para todas as mulheres. Eu sou muito mais privilegiada do que qualquer amiga negra e me vejo infinitamente mais representada do que elas. Por mais que enquanto eu crescia a cultura ainda fosse majoritariamente feita por e para homens, não tive grandes lacunas de representação. As atrizes e cantoras que eu gostava eram mulheres (brancas) e meu personagem preferido dos livros também: Hermione Granger, da série Harry Potter. Ela, aliás, nunca teve a cor especificada, mas quando foi levada ao cinema foi interpretada por uma atriz branca. Agora, com a peça “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, é a atriz Noma Dumezweni, negra, que a traz à vida. Outra mudança muito significativa, especialmente para as meninas negras que agora oficialmente se veem em Hermione.

Mas a escolha de Nome Dumezweni enfrentou resistência dos brancos, que acharam um rebaixamento representar Hermione como negra. Sob o argumento de que estava sendo infiel aos livros (o que a própria autora da saga refuta), destilaram racismo. Uma Hermione negra incomoda muita gente, um Harry Potter de olho azul (e não verde, uma de suas principais características) está tudo bem. Uma trilogia Star Wars com uma mulher branca e um homem negro como personagens principais e um remake de Caça-Fantasmas com mulheres são alvo de boicote. Um protesto pelo #OscarSoWhite é mimimi.

E isso sem falar de representação LGBT, de deficientes e de outras minorias étnicas. São representações que incomodam e que obtém sempre a mesma resposta padrão: não precisa disso. “Estraga a história colocar todo tipo de gente”, “hoje em dia só se preocupam com isso”, “as feministas querem mudar tudo”, “tem coisas que sempre foram assim” e por aí vai. Não é acaso o incômodo vir de quem está acostumado a se ver representado, daqueles que veem a representatividade simultaneamente como uma questão secundária e como uma ameaça. Como se o simples fato de mostrar pessoas diferentes de você piorasse uma narrativa.

Incomodar é sempre um bom sinal de que conseguimos mudar a estrutura de alguma coisa. Com a representação nos telões e telinhas não é diferente. Temos o direito de sermos representad@s e vamos continuar demandando isso, criticando quem não faz e reconhecendo quem cumpre seu papel de nos enxergar como seres humanos com histórias para contar. Nunca foram os filmes que, sozinhos, determinaram o que somos, mas é uma irresponsabilidade negar sua influência. Nós mulheres, LGBT, negr@s, asiátic@s, indígenas existimos. E o mundo precisa mostrar isso. 


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