Foto: Arte/Estadão

Geralmente você assiste a entrevistas com mulheres inspiradoras aqui, mas hoje vou emprestar meu blog para a Gisela*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Conheci meu marido, Victor*, há 21 anos na igreja que eu frequentava. Somos evangélicos. Na época ele tinha largado a faculdade de Educação Física pra fazer Teologia, queria ser pastor. Eu já era jornalista formada. Tinha 22 anos e me casei com 25. Tive um namoro curto, porque na igreja evangélica não pode ter relações sexuais antes do casamento, claro que depende de cada um, mas optamos por ser assim com nós dois. Eu já tinha tido relações com namorados anteriores e ele também, mas enfim, optamos por só se relacionar casados.

Victor tinha um porte físico grande, loiro, chamava a atenção, tinha um trabalho, era segurança de um banqueiro conhecido, não era rico, vem de uma família pobre, vamos dizer, classe C, igual a mim, mas eu até tinha mais condições. Meu pai é pedreiro, sempre ganhou bem, aquelas coisas, né, eu era da periferia, mas o pessoal brincava que eu era patricinha, não patricinha no sentido de ter tudo, mas no sentido de ter tido uma vida boa, privilégios com o meu pai, de ter conseguido fazer minha faculdade pagando. Embora meu pai não dissesse o tempo todo que me amava, era um pai muito cuidadoso, fez das tripas coração pra poder me dar um carro, pra eu ir cursar jornalismo. Sou a filha mais velha, única filha mulher.

Na época que conheci meu marido, ele era a promessa da igreja, tinha fila de mulheres querendo namorar com ele, mas não foi isso que me chamou atenção. Sempre fui uma mulher, de verdade, muito bonita, sempre chamei atenção. Namorei com pessoas bacanas, até de posses, terminei o namoro porque isso nunca fez a minha cabeça, sabe, nunca me vangloriei com isso, se eu tivesse que terminar, o cara podia me entregar uma ilha, depois que eu falasse ‘não’, era não. Eu era muito decidida e com o casamento fui me anulando, perdendo minha identidade.

Uma dica que posso dar para meninas mais novas é sentir durante o namoro alguns termômetros de que algo não tá legal. Tinha algumas coisas no namoro com meu marido que eu já observava, mas estava apaixonada, deixei passar. Um dia, a gente estava num shopping, ele sentou no banco e falou: “Olha, Deus me revelou algumas coisas que vão firmar o nosso namoro.”

Começou a perguntar coisas do meu passado, disso, daquilo, porque ele sabia de um envolvimento que tive com um chefe, solteiro, não é nada de assédio, não fui assediada, nada, foi um namoro velado porque a empresa era pequena, a gente não queria espalhar, então, assim, eu era solteira, o cara também, fui mega apaixonada por ele. Quis saber quais eram as pessoas que eu tinha saído. Eu era muito boba, sabe assim, e contei.

São 21 anos de casamento e tem coisas que ele me joga na cara há 20 anos. No meu primeiro ano de casada fui trabalhar numa empresa, fui contratada pela diretora da empresa, que era casada com o presidente, Gabriel*,  um cara muito educado. Fui contratada para uma função, mas ele conversou com a mulher dele, que era a diretora que havia me contratado e falou que preferia que eu ficasse internamente, para ajudar no marketing. Acabei indo muito bem na nova função, tinha minha sala, meu salário. Era uma fase muito humilde, morávamos em um apartamento pequeno, simples.

Em dado momento, o Gabriel começou a ser mais, vamos dizer, educado, mais cavalheiro. No começo fingi que não vi, era jovem, tinha 25 anos, não que eu não tinha malícia, mas a gente, até por causa do emprego, até por hierarquia, vai segurando a onda.  Mas teve um momento que não deu mais para fingir que ele não queria algo a mais. Toda hora ele mandava me chamar na sala dele, imagina um presidente. E aquilo assim, no começo, vou ser bem sincera, não sou hipócrita, a mulher, ela se sente lisonjeada, né? Mas tem uma hora que aquilo começa a pegar, eu não tinha nem um ano e pouco de casada. Um dia peguei e falei pra ele: “Olha, quero conversar com você, acho que tem algumas coisas que não estão alinhadas, vou começar a ter problema com sua esposa, tô casada há um ano, eu não tenho nem filho.” Aí ele falou: Não, Gisela, te acho realmente muito bonita, mas não tem nada a ver.”

Duas semanas depois, o Victor veio com aquele discurso que tinha sentido uma revelação de Deus, não tô desmerecendo, não, tenho o maior temor. Sei que tem coisas que Deus age, tenho a minha fé bem estabelecida, mas existem coisas totalmente manipuláveis. Eu luto muito contra isso. E aí ele começou a me pressionar. Perguntava se tinha acontecido alguma coisa no trabalho? Pressionou tanto que eu desabei a chorar e contei a história do Gabriel. Essa foi nossa primeira crise, das muitas que vieram depois. O Victor me detonou, disse que, com certeza, eu tinha dado abertura. Ligou pro Gabriel, ameaçou. Bom, conclusão, não aguentei a pressão e pedi as contas. Perdi um bom emprego e durante anos a briga do tomate, né, sempre falo do tomate, porque amo tomate. A briga do chuchu, da briga do supermercado que havia, ele trazia de volta o Gabriel.

Victor sempre foi controlador, por conta disso fui criando um ranço e também comecei a ser controladora com ele. Tinha a questão religiosa, ele cuidava muito de mulheres na igreja, falava com muitas mulheres. Mulher, sabe, às vezes, ela tá separada, carente, isso, aquilo, é normal olhar uma figura masculina que está dando as mãos e se sentir atraída. Hoje tenho certeza que ele me traiu, mas não tenho como provar.

Bom, enfim, com 5 anos de casados tive minha primeira crise ferrada no casamento, entrou o financeiro e financeiro todos sabem, estoura muitos relacionamentos. Fui pro gabinete do meu pastor, que tinha uma outra visão, hoje ele já é um senhor de idade, mas na época ele tinha uma visão mais a favor do homem. Lá, ouvi horrores, não ofensas. Os dois, o pastor e Victor, pediram para que eu largasse minha profissão para ficar um tempo em casa cuidando do marido e dos filhos. Amo minha profissão, sempre fui bem, mas acabei cedendo. Daí em diante meu casamento viveu em crise.

Quando minha filha tinha dois anos aconteceu a primeira agressão física. Victor me arremessou na parede, fiquei com tanto medo. Morávamos perto do cemitério da Vila Formosa, que já é um lugar sinistro por si só. Tava chovendo e eu saí sem rumo pelas ruas. As brigas, constantes, começaram a chamar cada vez mais atenção dos vizinhos, que chamaram a polícia com frequência.

Em 2015, já estava praticamente separada dele de corpos, convivia pelos nossos filhos e pela religião, que não é a favor da separação, mas não dormia mais com ele. Foi nessa época que aconteceu uma situação que nem gosto de falar, mas conheci uma pessoa e comecei uma relação extraconjugal. Não esperava, não foi em Tinder, como ele diz, ele fala que eu entrei em site de prostituição, e se fosse também, dane-se, mas não foi assim.

Não planejei, aconteceu. Ele, como homem, queria que eu confessasse quem era a pessoa, mas eu não cedi. Primeiro ele desconfiou de uma pessoa que não tinha nada a ver. Entrou em contato com essa pessoa, falou com a gerência de RH da empresa que a pessoa trabalhava, uma empresa enorme, ameaçou, mentiu, falou que o cara tinha me assediado. Olha, só sei que o cara ia ser mandado embora por justa causa.

E quando aconteceu isso, batata, ele me trancou no quarto e falou: “Agora você vai contar. Esse cara vai ser mandado embora por sua causa.” Eu falei: “Olha, não foi com essa pessoa. Não foi.” Logo depois, ele fez contato com pastoras amigas minhas, que eu achava que eram amigas, né. Uma delas falou que eu estava tendo um caso, que eu tinha confessado. E aí ela me chamou e falou: “Olha, você tá errada, tem que pedir perdão pro seu marido, você tá em caminho de prostituição. Jogando seu marido de bandeja pras prostitutas, porque se você não dá sexo pra ele, ele vai procurar fora”, foi a coisa mais dura que ouvi.

Comecei a desenvolver crises do pânico. Em agosto de 2016 me vi totalmente fragilizada, meu intestino torceu, obstruiu e necrosou, logo depois de uma briga violenta, que fui trancada dentro de um quarto. Passei por uma cirurgia tensa, os médicos até hoje não sabem o motivo, falam que é uma fatalidade, porque na minha idade isso não acontece. Só que o último médico que fui falou que está muito ligado ao stress.

Foi aí que Victor começou a me pressionar, ele falou: “Olha, se você quiser eu te perdoo, a gente recomeça, mas vai ter que ser do meu jeito, você nunca mais vai falar com homem, pegar metrô sozinha, trabalhar fora.” Eu tava com 30 pontos na barriga e na hora meio que acatei. Começamos um curso na igreja, chamado ‘Casados para sempre’. Não desmereço, vários casais conseguem reverter a situação, mas no meu caso não rolou. Quando chegava em casa, depois do curso, ele começava, “Ah, esse teu amante será que não é assassino? Será que ele não volta pra me matar?”. Foi aí que dei um basta. Falei chega, chega de curso, não quero mais esse casamento, pra mim, encerrou. Encerrou.

Hoje ainda moro com Victor por questões financeiras, mas estamos nos divorciando e assim que vendermos a casa pretendo seguir meu caminho. Tô vivendo um processo que chega a ser até um luto. É estranho, passei por tantas coisas ruins, mas quando vai chegando no final, as coisas vão revertendo, você vai sentindo um vazio. Estou trabalhando esses sentimentos na terapia.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.