Viviane de Freitas Lopes 
é jornalista, poeta e professora de escrita criativa. Mestra em Divulgação Cultural pela Unicamp e especializada em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP), é autora do livro Poesia de Geladeira (Moinhos, 2017) e tradutora do amor na http://www.escrevaumacartapramim.com.br/ – Instagram: @escrevaumacartapramim

1. Como começou a sua carreira?
Não diria que comecei uma carreira, comecei a trabalhar muito cedo, aos 12 anos. Desenhava bem e meu primeiro emprego foi como desenhista de silk screen em uma confecção, de lá fui passando para profissões correlatas: diagramadora, arte finalista, assistente de arte. Aos 17 anos entrei em um jornal durante um período que morei no interior e lá, além de diagramar todas as páginas do periódico, comecei a escrever: fazia a coluna social, cobria eventos, entrevistava personalidades. De volta à São Paulo, entrei em agências de publicidade e no início fazia de tudo um pouco, arte e redação. Fiz faculdade tarde, quando pude, me formei em Jornalismo aos 25 anos. Quando sai da última agência era redatora há alguns anos atendendo clientes grandes do varejo e simultaneamente era jornalista freelancer da Editora Lamônica. Com 32 anos estava bem profissionalmente, mas insatisfeita com o trabalho que fazia. Então, ao invés de me especializar em algo de marketing ou publicidade para crescer no mercado que atuava fui fazer o curso que meu coração mandava, uma especialização em Literatura na PUC-SP. A partir daí a vida e as escolhas foram me levando para o que sempre quis: trabalhar lendo, escrevendo e ensinando coisas que para mim fizessem sentido.
2.  Como é formatado o modelo de negócios da Escreva Uma Carta Pra Mim
Não diria que tenho um modelo de negócio, é claro que formatei um jeito de trabalhar e sigo essa premissa, porém nunca fui familiarizada com processos corporativos e gestão de empresas então a Escreva uma Carta pra Mim surgiu quase que intuitivamente. Sendo redatora e jornalista era comum me pedirem favores escrevendo cartas, cartões, e-mails, até cartazes de condomínio. Em um desses pedidos disse a uma amiga: “Você é corajosa por administrar tantas coisas, eu não conseguiria, só sei escrever”. E ela respondeu: “Eu seria muito feliz se tivesse o dom de escrever como você”. Aquela frase entrou na minha cabeça e comecei a perceber que tinha algo a oferecer, algo que nem todos têm. Isso aconteceu logo quando entrei no mestrado e queria trabalhar com algo que me deixasse em contato com a escrita e também me desse uma autonomia de tempo, para poder estudar. Daí para criar a Escreva uma Carta pra Mim foi uma consequência natural, pensei em trabalhar vendendo Textos para Momentos Especiais. Não teve um modelo de negócios inicial, não olhei se tinha concorrência ou gente que já fazia igual, como era publicitária desenvolvi o material de comunicação e comecei. Só fui ver concorrentes alguns meses depois porque foi difícil me fazer entender e à medida que fui tentando me comunicar através do site e redes sociais, fui adaptando conforme percebia a demanda. Por fim, migrei para o mercado de casamentos e fui bem sucedida. Hoje a Escreva uma Carta pra Mim tem três tipos de serviço: Criação de Cerimônias Poéticas para Casamentos e outras ocasiões, Criação de Cartas e Votos Personalizados e Projetos Especiais que incluem qualquer projeto de escrita. Por exemplo, esse mês estou finalizando um livro sobre os 50 anos do Grupo Escoteiro de São Caetano do Sul, após esse livro vou escrever a biografia de uma empresária do interior de São Paulo. Além dos casamentos, recebo pedidos de escrita de cartas para situações diversas como homenagens, aniversários e declarações de amor também. Costumo dizer que meu trabalho é traduzir amor em palavras, ser uma ponte entre aquilo que sentimos e o que gostaríamos de dizer. Voltando à pergunta, é um modelo de negócios baseado em observação e intuição ou para usar termos mais mercadológicos: pesquisa de mercado e feeling. Mas realmente não conheço muito bem modelos de gestão então quando alguém diz que sou empreendedora respondo que sou uma trabalhadora, alguém que cria seu próprio trabalho porque tem necessidade de sobreviver. Acredito que esse é o maior impulso criativo de todo profissional.
3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?
O mais difícil foi sustentar a decisão de não voltar ao mercado de trabalho formal e entender que eu tinha criatividade e talento suficientes sem depender do aval de ninguém. Por muito tempo nem eu nem as pessoas entendiam direito aonde aquela mudança estava me levando, tinha crises de ansiedade e às vezes pensava em voltar a distribuir currículos, participar de processos seletivos. As pessoas me mandavam links de concursos e vagas de emprego, ainda acontece às vezes. Tudo isso era um processo de se adaptar a uma vida de instabilidade, sem salário garantido e com uma rotina desregrada. Também precisei tirar da cabeça anos e anos de críticas e opiniões que tentavam colocar uma dúvida sobre meu trabalho, no caso a qualidade dos textos. Sempre sonhei em ser um profissional autônoma, mas a liberdade também vem com responsabilidades. Então se você se propõe a cumprir algo e não cumpre, a frustração é unicamente sua, precisa ter bastante disciplina.
 
4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora. 
Não é fácil, não tenho uma separação clara e não acho que faço isso como gostaria. Trabalho de home office e às vezes é difícil se concentrar unicamente no trabalho ou unicamente nas demandas da casa. A solução que encontrei foi disciplinar o meu tempo, planejar, agendar e listar até coisas simples que preciso cumprir, seja enviar um e-mail, arrumar o armário ou tomar um remédio. Também passei a meditar e repassar antes de dormir ou assim que acordo as tarefas que pretendo cumprir naquele dia. 
5. Qual o seu maior sonho?
Dar uma vida estável e confortável para a minha família, entrar no doutorado, continuar lendo e escrevendo muito – tanto as cerimônias de casamento quanto meus livros, e dar aulas que era o intuito inicial quando entrei no mestrado. Em 2019 estou com a agenda praticamente fechada e além dos casamentos quero publicar meu segundo livro de contos que já está pronto e finalizar meu primeiro romance. Também vou dar meu primeiro curso de escrita criativa no primeiro semestre.
6. Qual a sua maior conquista?
Conciliar trabalho e realização pessoal porque essas coisas não necessariamente andam juntas, temos de conquistá-las e muitas pessoas passam a vida inteira sem conseguir. Hoje em dia não diferencio muito quando é trabalho, quando é vida pessoal, tudo se mistura porque amo o que faço mas nem sempre foi assim. Também não posso dizer que era ruim antes, foram experiências boas e muito importantes que me trouxeram até aqui. Uso tudo, sem exceção, que aprendi nos empregos que tive e com as pessoas com quem trabalhei. Atualmente não passo um dia sem trabalhar, mesmo nas férias é sempre preciso enviar um e-mail, responder alguém, começar a criar um próximo texto. Esse é um lado negativo, digamos assim, mas por outro lado posso me dar ao luxo escolher alguns trabalhos e isso é um privilégio sem tamanho. Sei o quanto devo agradecer e faço isso todos os dias, sou grata a Deus e ao universo por viver um bom momento profissional e me sentir realizada.
7. Livro, filme e mulher que admira
Livro: É difícil escolher porque leio muito, mas vou citar um que me deixou algumas noites mexida e sem dormir bem – Ensaio sobre a cegueira do Saramago. E de poesia, as obras completas de Manoel de Barros e Adélia Prado.
Filme: Também é difícil e vou usar o mesmo critério, filmes que me impressionaram pelo impacto que senti na ocasião, lembro bem de três: Nós que aqui estamos por vós esperamos, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Interestelar.
Mulher que admira: São várias, todas reais, todas mulheres fortes e sobreviventes da minha família e minhas amigas.