Nossa Mulher Positiva é Rita de Cassia, chef de cozinha, mãe e uma guerreira que conquistou uma carreira com muito trabalho e determinação.

Como começou a sua carreira?

Nasci em minha cidade natal, um pequeno município no Paraná chamado União da Vitória e lá vivi até meus 16 anos. Filha caçula de um escrivão de polícia e uma professora de artesanato, estudava contabilidade e pretendia trabalhar nesta área. Nesse período conheci uma pessoa, comecei a namorar e, com o passar do tempo, a relação foi ficando séria, até que ele decidiu tentar a sorte na Cidade de São Paulo e me convidou para acompanha-lo. Resolvi aceitar e tentar mudar completamente minha vida, pois, naquele momento, imaginava o conhecer suficientemente para acreditar que tudo seria maravilhoso, que poderíamos ganhar muito dinheiro e que logo voltaríamos para minha cidade e daria continuidade aos meus estudos. Ao chegar em São Paulo, iniciamos uma longa e cansativa busca por trabalho e estadia. Na época, haviam alguns conhecidos que nos recomendaram uma agência de empregos especializada em encontrar trabalhos para pessoas do Sul do Brasil e, ao procurar por tal agência, fomos informados de que havia somente vagas para atuar como caseiros em mansões localizadas no litoral ou no interior de São Paulo.

Como não possuíamos qualquer tipo experiência profissional naquela área, não pudemos escolher muito para quem trabalharíamos e acabamos sendo escolhidos. No início confesso que havia um certo receio por parte dos contratantes, acredito que por conta da minha idade e biótipo (na época estava com apenas 16 anos, era loira, alta e com olhos claros). Me colocar neste mercado foi muito difícil e, para me adaptar, tive que mudar meus hábitos, prendendo e escondendo meus cabelos, deixando de passar minhas maquiagens ou passando a utilizar roupas sérias e largas, de forma que a minha idade e aparência não fossem um empecilho que pudesse colocar a minha credibilidade e responsabilidade em cheque. O nosso primeiro trabalho foi em uma mansão maravilhosa situada no bairro de Alto de Pinheiros e atendíamos um senhor de idade. Eramos somente nós e alguns outros funcionários na casa, mas o que me marcou foi a atuação da cozinheira que trabalhava lá. Uma senhora negra, forte, nascida no Mato Grosso do Sul chamada Dora. Até então, nunca tinha visto alguém que trabalhava profissionalmente com este tipo de atividade, o que me deixou bastante perplexa. Dora simpatizou comigo e começou a me dar verdadeiras aulas de culinária, fazendo despertar em mim uma admiração e encanto pelos seus talentos. Naquele tempo, Dora fazia diferentes tipos de pratos e os congelava e nos dias de produção, me chamava para ajudá-la. Eu amava participar de tudo aquilo e principalmente ter contato com o incrível mundo de temperos, aromas e sabores.

Dalí em diante decidi aprender a cozinhar e a me dedicar a essa atividade. Mudei de emprego e comecei a trabalhar em uma empresa, cuja atividade era trabalhar em uma cozinha industrial para mais ou menos 25 funcionários, divididos em vários turnos e com os mais variados cargos, contando os diretores e gerentes. A cozinha era um trivial de forno e fogão simples e foi a minha grande sala de aula, onde tive a oportunidade de ser aluna e também professora, preparando inúmeros pratos pela primeira vez e tendo que planejar semanalmente os cardápios diários e a respectiva lista de compras, sempre submetida à aprovação da diretoria da empresa. De alguma forma, eu passava toda a segurança e confiança que estava ao meu alcance e sabia que caso sentisse medo, deveria seguir adiante mesmo assim. Então, por não ter para onde correr, buscava sempre encarar a situação com dedicação e com a segurança de saber que daria tudo certo.

Eu realizava todas as tarefas da cozinha e com isso acabei assumindo uma grande responsabilidade para minha idade, sempre tentando provar a minha capacidade, especialmente porque achava que não poderia voltar para minha cidade de origem sem o sentimento de realização. Passado um certo período de tempo, quando estava com 18 anos completos, fiquei grávida e tive meu bebê. Toda a minha gestação foi em São Paulo, mas pela minha idade decidi que seu nascimento ocorreria em União da Vitória, junto com a minha mãe. Logo após seu nascimento, comprei um terreno e plantei uma árvore. Quando retornei de minha licença maternidade decidi que teria de trocar de trabalho, para poder conciliar com meu filho ainda bebê. Encontrei outro trabalho , onde permaneci por cerca de 13 anos, arrumei uma escolinha e pude ter meu filho sempre perto de mim. Neste novo trabalho, acumulei outras funções além da cozinha, fiz diversos novos cursos, como o de decorações de mesas e arranjos florais. Quando meu filho fez 12 anos, percebi que estava no momento de regressar para a minha cidade, pois já havia construído uma casa e comprado tudo que precisava. Então, conversei com meu filho sobre a hipótese dele morar em minha cidade, falei que seria ótimo e que estaríamos próximos a nossa família. Mesmo com pouca idade, ele me disse que a vida dele estava em São Paulo, que todos seus amigos estavam aqui e que pretendia, no futuro, estudar Direito.

Naquele dia percebi que demorei muito para tomar a decisão de voltar e que no fundo a minha vida também já estava em São Paulo, mas que seria muito difícil proporcionar ao meu filho tudo que ele precisaria para atingir seus objetivos. Percebi também que a função de ajuda-lo dependeria mais de mim do que de seu pai e assumi essa responsabilidade sem contar a sua ajuda. Meu filho era meu maior objetivo, então busquei encontrar um novo trabalho que remunerasse além do mercado, mas que ao mesmo tempo me exigia muito. Neste emprego, fiz grandes viagens a trabalho, me profissionalizei ainda mais, e fiz cursos com renomados banqueteiros como a Escola de Gastronomia Wilma Kovesi com Toninho Mariutti. Estava finalmente pronta para atender todos os paladares e entendi que é necessário atender o gosto do cliente, adaptar-me às suas necessidades e ajustar receitas e ingredientes conforme suas exigências. Neste emprego, tive a oportunidade de acompanhar meu empregador em viagens nacionais e internacionais, como Miami e Nova York, tendo pela primeira vez acesso a situações que nunca antes havia vivido.

Após 25 anos de casamento, decidi me separar do meu ex-marido por várias razões, meses depois ele faleceu, aumentando ainda mais a minha responsabilidade com meu filho. Por sorte, ele já estava cursando uma das principais faculdades de direito de São Paulo, havia sido consagrado com uma bolsa de estudos por mérito e estava estagiando em um escritório de advocacia. Mesmo assim, procurei aumentar minha renda, seja vendendo minhas férias, prestando consultoria a outras famílias ou realizando jantares particulares. Com muito esforço, consegui ajudar meu filho a complementar seus estudos com intercâmbios internacionais: trabalho voluntário no Peru, curso de inglês na Inglaterra e até mesmo um intercâmbio universitário na Universidade de Barcelona por um período de seis meses. Enfim, fiz o melhor que pude para criar meu filho e hoje ele é um excelente advogado, lindo por dentro e por fora. Acredito que minha missão como mãe está cumprida e que ele está pronto para assumir sua vida e escrever sua própria estória. Três anos depois do falecimento do meu ex-marido, conheci outra pessoa casei novamente.

Hoje tenho o privilégio de viajar apenas a lazer, realizei meu sonho de conhecer novas culturas e diferentes tipos de culinária, estive pela primeira vez na Europa em lua de mel e tive minha primeira viagem de férias nos Estados Unidos, sempre incluindo algum Workshop. Hoje temos novos objetivos vida e de viagens, mas nunca esqueci de tentar aproveitar às oportunidades para me tornar uma profissional mais completa e uma pessoa mais humana. Atualmente, meu plano é me aperfeiçoar na cozinha vegana, o que tem sido um grande desafio.

Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Momentos difíceis que me abalaram muito foram os que envolveram mortes. Perdi dois irmãos; um deles não consegui me despedi pois estava viajando a trabalho, perdi tios e tias queridos que não pude ir aos enterros. A morte repentina do pai do meu filho aos 49 anos de idade foi muito dura.

Qual a sua maior conquista?

Minha maior conquista é ver o resultado do meu trabalho e o grande homem que meu filho se tornou. A cada dia percebo que fiz as decisões certas na minha vida e que dinheiro é consequência. Agradeço por ter encontrado um companheiro especial e ter me casado novamente. Outra conquista é preservar pessoas boas na minha vida, pessoas que convivi no passado e que conhecem minha estória.

Qual o seu maior sonho?

Tenho alguns sonhos ainda; meu filho casar e me dar netinhos e ter sua própria família porque ele é filho único. Outro sonho é escrever um livro para ajudar iniciantes explicando o básico da cozinha como modos de cocção, tipos de especiarias, pratos únicos para o dia a dia até pratos de banquetes sazonais. Meu marido é gráfico e tem me dado muito incentivo para iniciar esse projeto, cuidando da parte de diagramação, conteúdo e projeto final. Sonho tambem em ter meu próprio negócio.

Livro Filme e Mulher que Admira:

Meus livros preferidos são sempre de culinária, tenho alguns Le Cordon Bleu, gostei muito do A Cabana e O Malabarista. Meu filme preferido é a Vida é Bela. Mulher que admiro: minha mãe por sua força de vontade e alegria de viver aos 88 anos.