Nossa Mulher Positiva é Paula Roschel, executiva e empreendedora. Ambiciosa e criativa, tem um modelo de negócios próspero que atende diversos veículos de credibilidade; o escritório de conteúdo JornaldamodA (www.jornaldamodabrasil.com). 

1. Como começou a sua carreira?

A ideia inicial não era trabalhar com jornalismo, tanto que meus primeiros estudos foram voltados para a área de marketing.  Aliás, nunca pensei em ser jornalista! (risos).
Mas aí durante o MBA em Moda a professora Carol Garcia, que coordenava o curso na época, me chamou para conversar e falou que eu escrevia bem e poderia dar muito certo na área de comunicação. Ouvi o conselho e criei o site JornaldamodA, mega experimental. Ele foi meu trabalho de conclusão de curso, inclusive.
Os blogs estavam começando quando o JornaldamodA passou a ter uma audiência considerável e eu, trabalhando numa multinacional de incorporação imobiliária, já estava bem dividida entre o trabalho mais administrativo e meus textos. Num belo dia, peguei o elevador do prédio da Hines, meu emprego na época, com uma menina que segurava um case para notebook da Cartoon Network. Perguntei onde ela tinha comprado a peça, que era uma fofura!
Ela então me falou que era da empresa onde trabalhava, a Turner, e que por lá além do Cartoon eles tinham outros canais. Quando ela citou que Fashion TV fazia parte do portfólio, nossa! Meus olhos brilharam! Contei que estava terminando o MBA em Moda e era apaixonada pela área, mas que ainda não tinha conseguido avançar muito. Ela me chamou pra tomar um café no escritório, dois andares abaixo, eu ganhei um case e ainda conheci o Horácio Martin, que coordenava o canal e me chamou para uma entrevista de emprego. Da noite para o dia virei diretora de conteúdo de dois programas da casa: o Glam (sobre moda) e o Toda Beleza (sobre bem-estar e cosméticos). Daí pra frente segui trabalhando na área e também continuei com o JornaldamodA, meu site do coração e agora agência de conteúdo. Eu não sabia, mas o jornalismo já fazia parte de mim desde sempre. Amo o que faço de uma forma inexplicável! Só não lembro o nome da menina que me deu o case, infelizmente! Mas a agradeço sempre!
 
2. Hoje você montou um modelo de negócios inteligente e enxuto. Você atende mais de 5 marcas diferentes de luxo incluindo, Revista Expressions, L’Officiel e Portal UOL. Como funciona a sua empresa? 
Em 2010 eu sentia que o mercado editorial já estava rachando e percebi que isso não tinha relação com a “ameaça do online” sobre veículos tradicionais, mas no peso financeiro que uma grande empresa tem, muitas vezes se transformando num elefante branco. Decidi tempos depois abandonar empregos formais de redações e montar um escritório pequeno para produção de conteúdo nichado, com qualidade e paixão. Me chamaram de doida, claro! Eu negava cargos com carteira assinada pra seguir como “freela”. Mas eu não estava sendo apenas freela, e sim montando uma rede de contatos de pessoas que precisam de textos bons e com um preço honesto – sem sucatear a produção, mas sem inflar o modelo de negócio com custos desnecessários. No JornaldamodA não existe espaço para status, mas para produção honesta de boas histórias. Minha alma será eternamente de repórter. Não ligo para cargos como editora ou diretora e foi esse o grande diferencial para me consolidar.
Na época também entendi que o jornalismo não precisa olhar feio para o branded content ou para a área comercial de uma revista. Mercado editorial é apaixonante, mas nunca podemos nos esquecer que como toda empresa precisamos lucrar. E dá para ganhar dinheiro fazendo conteúdo de qualidade, mesmo que ele seja um branded content.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?
O começo foi complicado, pois nunca tive ‘contatos’ na área que me abrissem mais facilmente portas. O mercado da moda nacional está mais amigável hoje, mas antes era uma panelinha bem difícil de entrar se você não tem um “Quem Indica” ou um sobrenome forte. Eu fui teimosa! Tomei muitos nãos, mas segui.  E o mais interessante é que agora escrevo muito mais sobre beleza, turismo e mercado de luxo do que sobre moda rsrsrs. Mas sou muito grata por tudo que a indústria me proporcionou. Cobri as principais semanas de moda do mundo e fiz matérias incríveis. Mais do que isso: conheci pessoas fantásticas e expandi minha forma de pensar e viver.

5. Qual o seu maior sonho?
Eu vivo o meu maior sonho. Tenho pessoas incríveis por perto, um trabalho que amo e saúde para viajar pelo mundo, outra paixão avassaladora. Mas tenho o sonho de ver o mundo mais seguro e justo para mulheres. Eu queria viver isso, inclusive! Viajei por quase 50 países e a situação de desigualdade de gênero é gritante aqui e fora, mas o Brasil é complicado! Índice absurdo de violência doméstica, de violência sexual e a tendência em relativizar atitudes machistas. Estou terminando meu livro sobre sororidade, pela Editora Europa, e acredito que mulheres podem se unir e se aceitar mais como parceiras, o que vai fazer com que a gente tenha muito mais força para encarar tantos pontos ruins da nossa sociedade. Se com o livro ou minhas falas eu conseguir fazer a qualidade de vida de algumas mulheres melhorar, eu posso dizer que realizei mais um sonho.

6. Qual a sua maior conquista?

Apesar de ter a carreira dos sonhos, acredito que minha maior conquista seja bem pessoal. Em 2009, pouco tempo antes de mudar para Londres, descobri que estava com depressão profunda. Minha vida estava incrível, mas tive a doença.
Depressão é aquela condição ainda marginalizada, que as pessoas falam muitas vezes que é frescura; o que é um absurdo. No Brasil o nível de ansiedade e casos de depressão são alarmantes! A minha depressão teve total relação com o TOC. Eu não sabia nem o que era TOC (transtorno obsessivo compulsivo), quanto mais entendia que o que se passava comigo era depressão. Me tratei e estou ótima, mas foram tempos pesados. Pra mim isso é uma conquista, pois superei a ‘vergonha’ inicial e busquei ajuda médica. Acho que a gente se conhecer, conhecer nosso corpo, nossos medos, ter esse papel de se olhar e acolher, é um ato para celebrar como conquista. Agora pensando numa conquista profissional, quando pisei pela primeira vez num desfile internacional credenciada pelo meu site, que no caso foi o da Burberry, em Londres, me senti vitoriosa. Pequenos e deliciosos prazeres.
7. Livro, filme e mulher que admira.
Livro: 1984, George Orwell  – sempre cito esse livro como favorito, pois foi impactante começar a estudar cultura contemporânea na escola, aos 16 anos, e entender muito mais a  história recente. 1984 era um dos livros indicados pelo professor e eu o devorei em poucos dias, pois é aquele enredo surreal cada dia mais real, sabe? E fala muito sobre liberdade – ou a falta de – que é um dos valores mais presentes na minha vida, como boa aquariana que sou.
Filme: Eu ainda estou muito impactada com Bohemian Rhapsody, então o coloco como meu favorito do momento. Freddie Mercury é uma paixão desde a infância. Figura forte, ousada, cheia de energia e com aquela presença de palco que emociona!
Mulher que admira: Poderia falar sobre Malala, que é um ícone de resistência para mim e para o mundo, mas minha base feminista é familiar. Minhas avós, Maria e Silvana, foram exemplos de força. Uma se divorciou numa época em que se separar era um absurdo. Ela queria se livrar de um relacionamento abusivo e teve coragem de enfrentar a sociedade. Já Dona Maria ficou viúva muito cedo e segurou a barra de criar filhos e ainda sobrou tempo para ser uma mulher forte, positiva e muito alegre. Claro que tenho uma base materna incrível também! Minha mãe é uma das pessoas mais doces e com uma veia para filantropia que me inspira. Talvez eu tenha essa carga ativista por causa dessas três grandes mulheres.