Nossa Mulher Positiva é a empresária Moema Soares, diretora das clinicas brasileira do Centro Terapêutico Máximo Ravenna, no Brasil.

1) Como começou a sua carreira?

Assim que me formei em Engenharia Química na UFPR, trabalhei na Planta de Alimentos. Nesta época, alimentos era uma área da Eng. Química. Depois, foi criado um curso específico tratando deste tema. Na sequência, trabalhei muitos anos no Polo Petroquímico de Camaçari, como Eng. Química de Produção, Qualidade e Segurança (após agregar formação específica em Segurança do Trabalho).

2) Como você enxerga o mercado de saúde e alimentação saudável no Brasil?

Um grande e atrativo mercado. No mercado da saúde, muito sofrido pela dificuldade do setor público e a queda da qualidade das universidades públicas no Brasil, ainda temos grandes oportunidades de desenvolvimento. Na área específica que trabalho hoje, voltada diretamente para a saúde global das pessoas, afetadas pela epidemia da obesidade, o Brasil em conjunto com outros países está acordando para a gravidade do impacto negativo na população, causadas pela excessiva e má alimentação. Mesmo a alimentação saudável pode provocar doenças por falta de limites. Sinto, após 10 anos trabalhando com alimentação saudável, uma evolução muito grande na disponibilidade e oferta dos alimentos. Quando começamos adotar o controle sobre açúcar (nas suas diversas formas), da farinha branca refinada – glúten – o mercado não estava preparado para esta nova realidade. Nossos pacientes foram pioneiros e sofreram pela falta e dificuldade na disponibilidade e acesso aos variados locais para manter o seu tratamento. Hoje as comidas processadas e ultra-processadas (junkfood) existem e são muitas. Mas também encontramos muitas opções de alimentos saudáveis, o que tornou mais fácil o que preconizamos para nossos pacientes. Realizar uma alimentação Gourmet e Saudável está virando uma rotina para quem está antenado com a longevidade. Pessoas com 90 anos ou mais, com boa qualidade de vida, são cada vez mais comuns. Vejo esta evolução a dez anos, todas as semanas nos aeroportos. Chamar uma pessoa de 60 anos de idoso está ficando cada vez mais difícil. Pessoas nesta faixa de idade são ativas em todos os sentidos. São grandes consumidores de turismo, mercado de luxo e participam do mercado executivo do país. Adorei o conceito de AGELESS passado pelo Carlos Ferreirinha. E assim o é idoso, acima de 80 anos e olhe lá… O mundo vai ter que adaptar-se a este novo público, que vem livre, com qualidade de vida, porque quer passear e ter aventuras. É um público exigente que consome como qualquer outra idade e tem respaldo financeiro para isto. Vamos observando a maneira que a indústria acompanha o movimento das pessoas. Com isto, explodiram os mercados de orgânicos, low carbs, veganos, das academias de todos os tipos, sem glúten e sem lactose (sempre temos excessos), etc… Sou uma defensora da comida, comida… nada de substitutos (rações humanas, shakes, etc…). Não suportamos conviver com o desprazer de uma comida insossa e sem brilho. Devemos realizar as dietas e reeducação alimentar sem sofrer. Vamos chegar ao tempo em que as comidas hiper gordurosas e com farinhas brancas refinadas é que estarão no lugar das exceções. Não a comida de dieta e sim a uma alimentação saudável e na medida. Este conceito vai custar um pouco ainda… Já temos limites em muitos campos, e a comida vai demorar para sair do

lugar de “cabo a terra”, para descarregar as emoções. Um público que entende de grupos alimentares e vem questionando os componentes dos alimentos industrializados. Já passamos da época que um nutricionista ia a público para falar que a fonte de carboidrato de uma refeição estava exclusivamente nas farinhas (um horror…). Estes alimentos são os que temos que ter na caixa de controle absoluto. Hoje está popularizado os carboidratos complexos, de alto valor nutricional e baixo índice glicêmico, conceitos que também vão entrando na rotina das pessoas. Óbvio que todas estas informações vão abrindo um novo mercado para atender as essas pessoas que desejam uma maior longevidade e qualidade de vida. Adoro o BALANÇO ÉTICO na alimentação. 80% do tempo, faço uma alimentação controlada e 20% do tempo, reservo para os momentos de festividades, coletivos. Mas com consciência também. Comer como se não houvesse amanhã, não mais… Tem ainda o caráter de causar adicção os alimentos ultraprocessados (farinhas brancas e açúcares) que além de causarem retenção hídrica, dificultam a quebra da conexão e compulsão alimentar. Um mercado em pleno desenvolvimento. Não peça para uma pessoa fazer uma redução calórica baseada em frango esturricado e salada. As mulheres podem sair da fotossíntese. Hoje existem opções gourmet, saudáveis e de baixas calorias. O maior segredo está na estratégia alimentar e quantidades.

3) Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Foi justo quando saí do Polo Petroquímico. Me dava prazer trabalhar como profissional mas sugava minha vida. A ruptura desta relação de muitos anos não foi fácil. Mas minha decisão ficou muito clara. Minha próxima forma de trabalhar tinha que ser com algo que me realizasse, me deixasse feliz e que tivesse um propósito muito determinado.

4) Você optou por seguir os seus sonhos e empreender. Foi difícil tomar esta decisão?

Sim. A decisão de trabalhar por um sonho foi tomada no momento que sai do Polo Petroquímico. Foi um período sabático. Minha mudança familiar para Argentina me proporcionou este processo. Pude trabalhar com minha realidade da obesidade e compulsão alimentar. Foi meio assustador no primeiro momento. Aceitar que existe dependência alimentar não é simples. Mas estudar, viver a mudança e passar a ter controle sobre minha alimentação, que é possível, me permitiu viver esta experiência a qual decidi trazer para outras pessoas que passam pelo mesmo problema. Estava o meu destino e caminho a ser percorrido. Dificuldades sim, muitas.. Levar um Método criado por um Argentino para o Brasil e fazer da forma que eu acreditava e tinha vivido, foi complicado, mas possível. Voltei ao Brasil em dezembro de 2007 e consegui preparar todo o processo de criação e inauguração da primeira clínica até março de 2009 (vamos completar 10 anos). Todos me diziam que não daria certo. Precisava de uma equipe, com um cabeça médico. Foram muitos cafés e algumas viagens à Argentina para comprovação da seriedade e crença de quem me ajudaria adequar clinicamente ao Brasil. Estava no brilho dos meus olhos e nos meus 47 kgs reduzidos, a possibilidade para acontecer. E assim foi. Até a empresa na Argentina teve que entender que para chegar ao Brasil tínhamos que nos adaptar a todos os cuidados médicos que nos cercamos. O paciente é abordado como um ser humano completo, com todas as necessidades clínicas, psicológicas, físicas e nutricionais. Uma equipe que interage a todo momento. Não é uma dieta com certeza e sim um tratamento médico interdisciplinar. Tomamos todos os cuidados clínicos, criamos protocolos dos exames clínicos obrigatórios no início do tratamento e quando se chega ao peso ideal. Tínhamos que ter esta garantia, por nossas crenças que estávamos melhorando a saúde de quem era tratado. Nosso status de respeito da classe médica vem daí. A certeza que devolvemos a saúde ao paciente. Neste momento, dietas de baixas calorias só existiam em âmbitos fechados (SPA’s). Trouxemos este tipo de dieta para a vida cotidiana, com alimentação gourmet, sem uso de anfetaminas ou outras medicações. Implantamos no Brasil a capacidade de baixar mais de 30 kgs sem cirurgia e sem medicação. As pessoas até podem optar pela cirurgia e medicações que vão aparecendo, mas sabem que existe outro caminho possível.

5) Qual o seu maior sonho?

Levar para crianças e jovens um tratamento acessível que ajude a construir uma consciência já nesta fase. São eles que mais sofrem com a obesidade. Deixam de desenvolver sua forma de ser porque tem que ceder, sempre, para os grupos com quem convivem para serem aceitos. São nossas maiores conquistas. Precisamos de políticas públicas.

6) Qual a sua maior conquista?

Ter tornado nosso Método aceito e respeitado pela classe médica. Mudamos a vida de muitas pessoas no país. Diria até que revolucionamos. Três clínicas no Brasil. E tem uma conquista muito especial, que tenho muito orgulho. A de ter entrado no Palácio do Alvorada para tratar a Presidente da República, Dilma Roussef, junto com a equipe de profissionais Ravenna. Sabendo que para isto ter acontecido tínhamos que ter a autorização da equipe médica que a acompanhava.

7) Livro, filme e mulher que admira?

Mulher que admiro e me inspira muito é Luiza Trajano.

– Filme RETRATOS DA VIDA – Bolero de Ravel . Gosto muito dos filmes

baseados na vida real. São os meus preferidos. Adoro filmes.

– Livro – Cem Anos de Solidão.

Tem também o livro que ajudou a mudar a minha vida que é a Teia de Aranha Alimentar que ajudei a traduzir e definir este título em português (nome original – Teia de Araña Adictiva). Foi onde pela primeira vez entrei em contato com ADICÇÃO ALIMENTAR (compulsão) através de neurotransmissores, que disparou meu maior amor que é a Neurociência. É incrível. Mudou minha forma de olhar e entender a obesidade e suas dificuldades. Mudou minha abordagem da clínica para a compreensão da cronicidade da obesidade e a crueldade da sociedade com as pessoas que estão em processo de recuperação, tratamento e buscam o controle da doença.