Nossa Mulher Positiva é Lydia Chagas; aos 92 anos, é um símbolo das conquistas femininas e escreveu seu nome na história de São Paulo ao fundar o famoso Baile da Maria Cebola. Clássico dos anos 80, a atração foi a primeira voltada para o público feminino. Mais do que diversão, o baile transformou a noite paulistana, ao permitir a entrada de mulheres desacompanhadas, quebrando um tabu social. Com muita música e jogos como o Baralho do Mico (onde a pessoa tinha que encontrar quem estava com uma carta igual a sua), o local foi o palco da formação de muitos casais.

Lydia é uma mulher além do seu tempo. Foi com a cara e a coragem para o mercado de trabalho, após a separação do primeiro casamento, que durou 14 anos. Atuou como vendedora de cosméticos, agente de turismo e organista em um famoso restaurante de São Paulo, antes de criar o Baile da Maria Cebola.

Referência para muitas mulheres, conta com orgulho sua história e ainda mantém toda elegância e vaidade ao não dispensar a maquiagem diária. Atualmente é inspiração para as colegas da Cora Residencial Senior, onde vive.  Tem três filhos e três netos.

Como começou sua carreira?

Comecei minha carreira após a separação do meu primeiro marido. Um casamento que durou 14 anos. Na época eu tinha 32 anos, nunca havia trabalhado e nem estava preparada para isso. Saí de casa com a cara e a coragem.

Trabalhei em muitas áreas. Iniciei como vendedora de produtos de beleza e as oportunidades foram aparecendo, por exemplo, eu sabia tocar órgão, aprendi de ouvido (tinha ganhado um do meu primeiro marido) e toquei em um restaurante famoso chamado Maria Fulô aos finais de semana.

Atuei também como agente de turismo por 10 anos, organizando roteiro de férias. Foi ótimo. Conheci muitos lugares, em especial, o Japão. Organizei uma viagem só de casais para lá e foi um sucesso.

Foi nos anos 80 que recebi o convite de um amigo para trabalhar no L’ Absinthe, onde criei o Baile da Maria Cebola.

Qual foi o momento mais difícil na vida?

Tiveram alguns momentos difíceis. As separações, o começo da vida profissional e os preconceitos da época, apesar de não dar muita bola para isso não.

Na verdade, sempre tive muitos amigos e eles estavam ao meu lado, o que ajudou muito.

Além disso, estava tão convicta do que queria que não deixava que os problemas ou as dificuldades me atrapalhassem. Ia em busca do meu objetivo.

Qual o seu maior sonho?

O Maria Cebola foi muito importante por tudo o que representou. Eu estava muito incomodada com a situação das mulheres. Elas só podiam entrar em bailes se estivessem acostumadas, não andavam sozinhas nas ruas. Era um período difícil.

Eu queria de alguma forma mudar isso. Pensava em criar um ambiente divertido onde pudessem frequentar sozinhas. Já havia algum tempo eu estava tendo algumas ideias.

Certo dia recebi a ligação. Era um amigo, o Waldemar Issa, dono do bar L´Absinthe me convidando para trabalhar com ele, como relações públicas. Aceitei a proposta, desde que pudesse organizar um baile para mulheres nas segundas-feiras. Naquela época, os bares e restaurantes eram fechados nesse dia. Assim nasceu o baile do Maria Cebola, que logo ficou famoso, saiu em jornais, na televisão.  Foi um sucesso.

Começou a ser realizado todos os dias. O público cresceu e o espaço ficou pequeno. Passamos então pela famosa discoteca Ta Matete e o Saint Paul. Imagina o quanto cresceu.

O baile da Maria Cebola durou 10 anos.

Qual a sua maior conquista?

Tenho orgulho de tudo o que eu fiz. Deu tudo tão certo na minha vida. Meu tempo trabalhando com turismo foi maravilhoso, trabalhar como organista no Maria Fulô foi incrível e criar o baile do Maria Cebola foi um sucesso. Eu realmente amei fazer tudo.

Como foi trabalhar como organizadora do baile naquela época?

Havia preconceito, machismo, mas não eu dava bola para isso não.

Como foi conciliar vida pessoal e profissional naquela época? 

No começo quando comecei a trabalhar, após a primeira separação, foi difícil, porque eu não estava preparada. Mas, as coisas foram acontecendo e fui me estabilizando.

Quando o Maria Cebola passou a ser realizado todos os dias, eu trabalhava a noite inteira. Chegava em casa às 9h da manhã. Dormia até a hora do almoço e a tarde cuidava dos outros afazeres.  Era puxado, mas quando a gente faz o que gosta, não dá para reclamar.

Qual filme, livro e mulher que admira?

Eu sempre amei ler, não sei dizer se há uma obra favorita porque já li tanta coisa. Lia desde livros esotéricos até literatura. Gostava muito de Will Durant (autor de livros clássicos como A História da Filosofia e A História da Civilização). Hoje estou mais voltada para religião.

O mesmo acontece com os filmes. Eu amava ir ao cinema. Hoje, assisto muito canais que só exibem filmes. Sinceramente, não sei te dizer qual eu mais gosto.

Sobre pessoas, tem muita gente que eu admiro. Mas, o mais importante, é que sempre respeitei o meu jeito.